Vivendo numa bolha branca

Acabo de ler:

“Ei, branco, você é mesmo antirracista?”. 

Continuo lendo:

“Não basta gostar do Mano Brown, achar a Naomi Campbell e a Michelle Obama ‘incríveis’, repetir frases da Angela Davis e outros tantos pensadores e pensadoras negras porque é ‘cool’ se você fica em silêncio diante de uma demonstração de racismo“.

GLUMP!!!

Dizer que não existe racismo no Brasil é querer tapar o sol com a peneira.

Peggy McIntosh, acadêmia feminista e antirracista define a branquitude como um “pacote invisível e indébito de ativos que podem ser descontados diariamente”, mas cuja existência não se reconhece.

“Como uma pessoa branca, eu tinha aprendido que o racismo é algo que coloca os outros em desvantagem, mas não fui ensinada a enxergar um de seus corolários no privilégio branco, que me coloca em vantagem“, explica.

Ter a consciência de que brancos usufruem de privilégios simbólicos e materiais em relação aos negros é passo fundamental para que se possa combater o racismo no Brasil.

Sim, é fundamental que nós, brancos, atentemos para nossas percepções, concepções e práticas e, em autocrítica, tenhamos a lucidez necessária sobre essa questão tão presente.

Mas, afinal, o que é privilégio?

Gostei muito da explicação de um amigo que trabalha com TI (Tecnologia da Informação). Ele disse que em sua área profissional, privilégio é o nome dado à permissão que apenas alguns usuários têm, num sistema de computador, para executar determinadas ações ou acessar determinadas áreas.

Se todos têm acesso ou controle sobre algo, então não há privilégio. Privilégio existe somente em relação a outros não terem as mesmas possibilidades ou vantagens.

De acordo com as condições nas quais a pessoa nasceu, ela terá mais ou menos acesso a certas coisas como até mesmo ter ou não suas necessidades básicas na infância atendidas e acesso à escola, por exemplo.

Se as mortes negras parecem distantes do mundo onde você vive, saiba que as instituições que negam justiça a estas mortes moram ao seu lado. São as corregedorias de polícia, os governos estaduais, as promotorias. O que nos falta não são notas de pesar; falta usar o privilégio que nos faz viver longe destas mortes para que elas, ao menos, recebam a justiça que merecem. Thiago Amparo

Djamila Ribeiro lança Pequeno Manual Antirracista - Marlos Bakker
A filósofa feminista negra Djamila Ribeiro

Em Pequeno Manual Antirracista, a filósofa feminista negra Djamila Ribeiro busca levar ao grande público, com uma linguagem didática, uma discussão que costuma ficar restrita a círculos acadêmicos e de militância.

“Hoje tem pessoas que até reconhecem o racismo, sabem que o Brasil é racista, mas não pensam quanto que é importante tomar atitudes em relação a isso“, explica.

A prática antirracista é urgente e se dá nas atitudes mais cotidianas.

COMO?

  • informar-se sobre racismo
  • ler mais autores negros
  • reconhecer os privilégios de ter nascido branco
  • apoiar ações que promovam a igualdade racial nos diferentes âmbitos da sociedade.

Segundo Djamila, as ações acima podem ajudar a reverter o quadro atual.

“No Brasil, há a ideia de que a escravidão aqui foi mais branda do que em outros lugares, o que nos impede de entender como o sistema escravocrata ainda impacta a forma como a sociedade se organiza”, diz em um dos capítulos do livro.

A questão é: “O que você está fazendo ativamente para combater o racismo?”.

“Não se trata de se sentir culpado por ser branco: a questão é se responsabilizar. Diferente da culpa, que leva à inércia, a responsabilidade leva à ação. Dessa forma, se o primeiro passo é desnaturalizar o olhar condicionado pelo racismo, o segundo é criar espaços, sobretudo em lugares que pessoas negras não costumam acessar”, acrescenta.

Termino esse texto lendo a frase do ex-jogador norte-americano de basquete profissional Michael Jordan:

“Algumas pessoas querem que algo aconteça; outras desejam que aconteça alguma coisa e existem as pessoas que fazem acontecer“.

Agora, me diga, quais autores negros você já leu?