Escreva uma carta

‘Cartas de Amor aos Mortos’, de Ava Dellaira, foi o último livro que eu li. Porque eu adoro cartas. Porque eu adoro livros que contêm cartas. Porque eu escrevo cartas as quais nunca enviei.

Tudo começa com um tarefa para a escola: escrever uma carta para alguém que já morreu. Logo o caderno de Laurel está repleto de mensagens para:

  • Kurt Cobain
  • Janis Joplin
  • Amy Winehouse *
  • Heath Ledger
  • River Phoenix
  • e outros que já se foram

O que parecia uma simples lição de casa logo se transforma na maneira de Laurel lidar com seu primeiro ano em uma escola nova e com a família despedaçada depois da morte de sua irmã.

Inteligente, linda e extrovertida, May era tudo o que Laurel gostaria de ser, sua verdadeira inspiração, principalmente depois de os pais das duas se separarem. Com a morte de May, a outra se muda de escola para evitar os olhares curiosos dos colegas e acaba na mesma escola de Sky, um garoto misterioso, e de Hannah e Natalie, duas amigas inseparáveis que se aproximam de Laurel. A garota se apaixona, arranja novos amigos e tenta seguir com a vida, mas a dor da perda insiste em atormentá-la.

Uma história brilhante sobre a coragem necessária para continuar vivendo depois que nosso mundo desmorona. Uma celebração comovente do amor, da amizade e da família.

Sempre me interessei por cultura pop, filmes, músicas, livros e o significado deles para pessoas que enfrentaram traumas ou apenas as dificuldades do dia a dia. Acredito que eles proporcionam um senso de pertencimento ou algo a que se ater. Eu perdi minha mãe pouco antes de começar a escrever o livro. Estava no processo de luto, e como as cartas ajudaram Laurel a superar sua perda, escrever Cartas de Amor aos Mortos fez algo similar por mim – Ava Dellaira.

Ela tinha talento, tinha dinheiro, tinha personalidade. Ela só não tinha quem secasse suas lágrimas e, por isso, sentia como se não tivesse nada. No fundo somos todos um pouco Amy Winehouse.

Escrever me ajudou quando eu perdi a minha mãe. Depois de lançar meu livro, eu criei uma área em meu site na qual as pessoas podem postar suas próprias cartas de amor aos mortos e me surpreendi com o resultado – recebemos muitas mensagens, todas intensas e diferentes. Sinto que muitas pessoas estão fazendo isso porque simplesmente precisam escrever, dizer o que sentem de alguma forma. Essa é uma prova do poder da escrita no processo de superação. Não é algo instantâneo, você não coloca algo no papel e logo está curado, mas é uma forma de se conectar com o que está sentindo e expressar esses sentimentos – Ava Dellaira.

* A verdade nua e crua das músicas de Amy Winehouse não eram confortáveis. Incomodavam, entristeciam, mas, ao mesmo tempo, libertavam muita gente da obrigação de dizer “está tudo bem”. Às vezes não está e precisamos falar sobre isso.

Ela foi para a sua nuvenzinha

A Flávia foi embora. Partiu para a sua nuvem.

Nós conversávamos muito sobre ela: a morte. Nós conversávamos muito sobre tudo. Teve uma vez em que eu fui vistá-la na sua casa, em Jarinu. Cheguei logo depois do almoço e saí de lá quase meia-noite. Durante todo esse tempo, ficamos sentadas na mesa da sala tagarelando enquanto o Keko (seu marido) limpou o quintal, limpou a piscina, limpou a cozinha, levou o Gabriel (seu filhote) na casa do amigo, foi à padaria, buscou o Gabi.

Naquela tarde, nós comemos um bolo e um pacote de bolacha cream cracker inteiro com geleia de morango, bebemos três xícaras de chá, duas de café e um copo de suco. Assunto e apetite não nos faltavam. Não porque éramos duas jornalistas famintas, mas sim porque tínhamos uma conexão incrível e uma fixação por cachorro-quente (mesmo eu sendo vegetariana, às vezes) e torrada com alho às 8h da manhã.

Nós éramos capazes de ficar por horas falando sobre ela: a vida. Tanto que, naquela noite, ao chegar em casa, eu enviei esse trecho de um artigo da Folha a ela:

Eu tenho mania de apagar tudo, mas esse print se manteve intacto na minha galeria.

Eu a amei desde o primeiro dia em que a vi.

Ela era a boneca Barbie da Viúva Porcina e eu adorava isso. Havia a Flávia versão country (que eu chamava de Barbie Rodeio), versão praiana (a Babie Havaí), versão executiva (a Barbie CEO), versão gala (a Barbie Festa). Tudo o que ela colocava tinha a ver com o tema do dia: dos pés à cabeça. Uma Barbie de carne e osso, com colar de pérolas, delineador gatinho e batom vermelho, com roupas da Itália (de Jarinu rs).

Como eu disse lá no começo, nós conversávamos muito sobre ela: a morte. Sempre de forma leve, bem-humorada, mas nem por isso eu deixava de acreditar em suas palavras. Ela costumava dizer que quando chegasse ao céu haveria uma nuvem só para ela, espaçosa e luxuosa. Quando alguém agia de forma ríspida, a loira mandava essa: “Olha que eu não te recebo na minha nuvenzinha!”.

Imagino a nuvenzinha da Flávia toda forrada de animal print, com todos os seus móveis que ela adorava, TV ligada no canal E!, wi-fi bombando, petiscos e bons drinks para as visitas. Hoje, a nuvem da Flá deve estar mega movimentada, um auê danado, enquanto nós, daqui debaixo, sentimos sua partida com uma tristeza sem tamanho.

Na última vez em que trocamos mensagens, eu falei para a Flávia ficar no seu quentinho. A resposta virou até post (de longe, o melhor texto que eu já escrevi). Ela me respondeu com um eu te amo + três corações verdes. Hoje, eu falo para a Flávia me esperar na sua nuvenzinha e te mando, daqui debaixo, um eu te amo pra sempre + infinitos corações verdes.

Quer sorte eu tive em te ver assim, de pertinho, em tantas terças-feiras de manhã. Ah, essa foto eu peguei de um texto do jornalista Thiago Godinho.

Renata: Miga, tô com medo.
Flávia: Medo do quê?
Renata: De morrer…. Não quero morrer e ter que passar pelo túnel escuro!
Flávia: Miga, a ressurreição é algo maravilhoso! Você vai ver quando chegar a hora… E eu vou estar lá te esperando…
Renata: Promete?
Flávia: Prometo! 💚💚💚

Ah! Não consigo falar da Flávia sem pensar em duas pessoas que eu conheci por causa dela: Neide, você é o meu presente da vida! Lili, você é a versão morena da loira. Eu a vejo em você, sabia?

Numa noite de julho
Para Flávia Fernandes

Virando pó, pozinho
Sozinho e sem direção
Nada muda nessa vida
A não ser esse medo
Da solidão

Virando só, sozinho
Poeira varrida no chão
Da sala oriunda do ar
Varanda aberta ao léu
Caminho da rua
Imensidão do céu

Virando nada, nadinha
Coisa maluca essa de morrer
De deixar coisas desencontradas
Não ver mais as pessoas
Com tantos livros a ler
E filmes a assistir
Canções a conhecer
Para cantarolar na imensidão

Virando saudade, imensa
Coisa que ficou engasgada
Notícia tão importuna
Nessa noite de julho
Onde as estrelas brilham
Aquecem e chamam nossa atenção
E num rabo de cometa
Um brilho azul acena
À Terra
Estou logo ali
Num piscar de olhos
Num instante esperança
Nos corações atentos
Uma doce lembrança…

Homenagem do Marcio Martelli da Editora Inn House para a Flávia (a nossa Flavinha)

Só por hoje

Só por hoje, estarei determinada a FOCAR e a INVESTIR em meu bem-estar físico, mental, intelectual, espiritual e profissional. Para isso:

– Só por hoje, comerei de forma saudável (muito verde, muita água, muita fruta; menos industrializados, meno fast foods, menos carboidratos, menos doces, menos frituras, menos batata-palha, menos lactose);

– Só por hoje, estudarei (lendo jornal e matérias da internet com propósito);

– Só por hoje, não perderei tempo com pensamentos e atitudes que não me acrescentam e só me desanimam, evitando assim a inveja, a fofoca, o desânimo, o impulso, a comparação e a perda de tempo;

– Só por hoje, serei grata e entenderei que “tudo tem seu tempo”;

– Só por hoje, não irei proferir palavras negativas, sem reclamações;

(devemos abandonar a fala negativa por amor aos outros e a nós mesmos)

– Só por hoje, não irei reclamar (de novo), falar mal, e nem fazer comparações;

– Só por hoje, escutarei;

– Só por hoje, acreditarei que o melhor está por vir. Confiarei nos planos de Deus;

– Só por hoje, controlarei minha mente para isso!

E, sempre que minha mente desviar para pensamentos negativos, eu farei o esforço de recalcular a rota e rever meus preceitos: ser saudável, dedicada e estudiosa. Tudo isso será recompensado para ter um corpo saudável, uma mente equilibrada e positiva, ser bem-sucedida no trabalho e na vida pessoal.

*** A força de vontade é a capacidade de resistir à gratificação de curto prazo em busca de metas ou objetivos no longo prazo. ***

*** O desejo de equilíbrio, que sempre invoquei ao avistar a primeira estrela no céu, e que a vida inteira pareceu tão inatingível, agora está ao alcance da mão. ***

Só uma observação

Tudo certo com querer alguma coisa – mas querer é também não ter. Portanto, cuidado com as coisas que queremos, para que elas não abram buracos demais dentro da gente. Querer é estar insatisfeito.

Quanto mais queremos, mais vamos escorrer de nós mesmos.

(Foto: Unsplash)

Corajosa ela

“Quando peço para aprender a ser mais corajoso, a vida não me torna corajoso de repente. Ela me coloca em uma situação na qual a coragem vai ser exigida. E aí eu posso aprender a usar essa virtude, ou posso permanecer no mesmo lugar fazendo do mesmo jeito”, menciona Gu Tanaka, colunista da revista Vida Simples.

No verão passado, eu trabalhei numa loja da Farm, em Cambury, litoral de São Paulo. Foram três meses de “Olá, como posso te ajudar?”.

A coragem não tem nada a ver com as funções que desempenhei como vendedora temporária, uma vez que já tinha feito isso antes. No verão de 2016, trabalhei como balconista na Cacau Show de Boiçucanga, em São Sebastião. Foram outros três meses de “Quer uma ajudinha?”.

Mas você é jornalista, né? Sim. E fez pós na Cásper Líbero, né? Sim. E já esteve em Nova York? Ah, sim. E não foi você que ganhou um prêmio de “jovem talento” no Estadão? Sim, sim! Um celular da @TIM e uma mochilinha.

Na verdade, nunca deixei de ser jornalista. Eu sempre vou ser jornalista, aliás. Mas, ao longo da minha vida, tive a coragem de assumir outros papéis. Além disso, nunca gostei de ficar sem trabalhar.

Ah! Sou “cara” também. Para pagar os meus gastos, só pegando no batente.

Eu, que já tive uma vaga reservada na garagem de um prédio comercial em Alphaville, me vi sentada sozinha no ponto mais deserto da rodovia Rio-Santos, por várias noites, aguardando meu busão chegar. Eu, que já fiz parte da plateia VIP do TEDx Campinas, me vi num depósito minúsculo carregando pilhas de caixas empoeiradas e mofadas. Eu, que já fui dona de um crachá de coordenadora, me vi sendo chamada de novata.

E você fez tudo isso por amor, rebeldia, necessidade?

Fiz tudo isso porque eu tive coragem e porque não existe vida sem perrengue.

Sinto orgulho do quanto que aprendi. Do quanto eu pude amadurecer. Da fé que me reconstruiu.

Senti e ainda sinto Deus segurando as minhas mãos. Vejo Ele cuidando de tudo com muita perfeição.

Compreendo as lições que absorvi na dor. O amanhã só chega para quem sobrevive.

E quanto mais eu me conheço, sei do que preciso para poder resistir, com coragem.

Hoje, aceito que cada fase tem suas dificuldades e belezas, e tiro sempre o que ela tem de mais positivo.

Porque a vida não é um conto de fadas.

(Foto: Bernard Hermant- Unsplash)

Oração escrita por Edgard Abbehusen

Deus não decepciona. Ele cuida, ampara e tira do seu caminho o que te atrapalha para alcançar Seus planos. Por isso, fé e tranquilidade. Serenidade diante das tempestades. Se você pudesse perceber as pegadas na areia, saberia que nunca esteve só. Não se desespera. Não se limite a pensar que existe um fim, quando na verdade existem diversas possibilidades que podem te ajudar a recomeçar de novo quantas vezes for necessário.

Quando a gente escreve, se mostra!

Hoje eu acordei

#Cena1

Hoje eu acordei às 8h30.

Ops! Antigamente eu levantava da cama às 7h. Tudo bem, ainda está dentro do limite. Depois das 9h, eu não me perdoo.

Resolvo ligar a TV antes de me levantar.

Ops! Antigamente eu me alongava, ia ao banheiro e só depois ligava a tela. Tudo bem, está tudo muito confuso no momento. Não tem problema inverter a ordem.

O QUÊ?

Estão dizendo que a vacina da Covid-19 foi aprovada!

Pego o meu celular para checar:

– 159 mensagens no grupo das jornalistas;

– 89 mensagens no grupo da família;

– e mais centenas de outras msgs.

A vacina começará a valer a partir de amanhã. Aleluia!

Então, a partir de amanhã, o mundo voltará ao normal.

#Cena2

Hoje eu acordei às 8h15.

Já estou atrasada para tomar a vacina. O postinho está aberto desdes as 6h. Sigo pra lá, sem me alongar.

O QUÊ?

Dou de cara com uma fila de dobrar o quarteirão, que me lembra a vez em que fui à montanha-russa de madeira no Hopi Hari.

Abandono a ideia de tomar a vacina hoje. Já fiquei tanto tempo isolada, mais uma dia, menos uma dia…

#Cena3

Hoje eu madruguei.

Sim, são antes das 7h e eu já estou na fila. Preparada e alongada.

O QUÊ?

Acabaram-se as vacinas.

Saco. Fica pra amanhã. Já fiquei tanto tempo isolada, mais uma dia, menos uma dia…

#Cena4

Hoje eu acordei às 8h.

Hoje eu fico na fila, faça chuva ou faça sol.

Fui pra fila, me mantive na fila, escutei podcast na fila, fiz amizade na fila, comi na fila, joguei candy crush na fila, me alonguei na fila.

Estou há 5h30 numa fila, que me lembra a vez em que fui assistir Titanic no cinema.

O QUÊ?

Finalmente chegou a minha vez!

Ai, é vacina. Odeio vacinas.

Mas eu tenho que gostar dessa. Foco no meu sobrinho para esquecer a dor. Que carinha fofa. Finalmente vou poder carregar esse menininho no colo!

Foco na minha sobrinha. Que carinha fofa. Finalmente vou poder abraçar essa menininha chata de galocha.

Cena 6

Hoje eu acordei às 9h15.

Não tem problema. Hoje eu tô vacinada. Hoje eu tô feliz. Começo a me alongar, ligo a TV e checo o celular, tudo ao mesmo tempo:

– 268 mensagens no grupo das jornalistas;

– 129 mensagens no grupo da família;

– e mais milhares de outras msgs.

O QUÊ?

Estão dizendo que a vacina não faz efeito.

Ah, não. Vai começar tudo de novo….

Volto a dormir. Já fiquei tanto tempo isolada, mais uma dia, menos uma dia…

(Foto: Emily Morter / Unsplash)

Palavras que fazem PLIN!

(Eu faço listas. Muitas. Numa delas elenquei palavras que fazem PLIN quando alguém as emite. Resolvi unir essas palavras que fazem PLIN numa narrativa ficcional. Eis o resultado da minha colcha de retalhos. Ops! Colcha de palavras que fazem PLIN!)

(Foto: Cody Metcalf / Unsplash)

Quando criança, derrubei a marinex da minha mãe Georgina ao meter o bedelho nas suas mariolas requentadas e muxibentas.

Aconteceu tudo de forma espalhafatosa, de supetão. Deu chabu, claro. Esse episódio causou um quiproquó e rendeu uma cicatriz no meu cocuruto.

Pela primeira vez na vida, emudeci. Adeus, acalanto.

Não sei se a minha mãe ficou fula da vida e cabisbaixa por conta da travessa de vidro espatifada, que era da tia Cidinha, ou do doce de banana/caju que elvis.

Só sei que eu, sua pupila, a decepcionei mais de uma vez. Eu era a centelha da família, aquela que todo mundo esperava ver brilhar.

Dei um pinote alucinado e torrei os pacovás de todo mundo ao longo da minha infância! Eu achava graça no meu jeito traquinas de ser, zanzando para cima e para baixo pelas ruas.

Bendita hora que fui despejar essa bigorna! Que frisson causou tudo isso!

A gentarada toda quis ver a desova do vasilhame. Quanta balbúrdia fui capaz de causar por causa de um pirex mambembe e démodé! A borda estava toda carcumida!

A molecada escafedeu-se quando comecei a chorar como madalena arrependida. Eu estava com um aspecto deplorável.

“Chega de firula”, mainha gritou.“Vou te dar um safanão!”, continuou muito pê da vida. Ainda meio abobalhada, parei para esfriar a moleira.

Ela havia pedido para usar seus cacarecos de cozinha com parcimônia, pois, segundo tia Filó, que agita as pestanas e solta perdigotos quando fala, “foram uma barganha”.

Demasiadamente, sinto-me uma palerma por ser tão estabanada. Possuo um tipo de cacoete que não me deixa equilibrar as coisas direito. Além disso, sou péssima na cozinha: os meus bolos sempre batumam (eu devo untar a forma?) e não sei sovar o pão direito. Mas depois de pronto, gosto de potchar o miolo no ovo, ou comê-lo com jerimum. Dá até pra fazer croquete!

Esses pratos teriam sido bem mais palatáveis. Saudades de uma feijuca.

Deve ser por isso que não namoro gentleman de sorriso jocoso e Gomalina nos cabelos, nem desfruto dos seus benesses. Só saio com mocorongos e acredito em seus discursos nada fidedignos, sendo que a maioria deles tem nome pitoresco.

O último foi o Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo. Até hoje me recordo do seu olhar brejeiro e de suas piscadelas, quando passeávamos no campo de papoulas.

Teve o Percival também, ele era bem turrão e misturava leite com Gardenal. Um tchongo que se bandeou para o lado, em busca de ninfetas e sirigaitas.

Outro canastrão e risonho foi o Donizete, com seus olhos azuis e fartas sobrancelhas grisalhas que lhe dão um ar duendil. Pena que era bebum e só pensava em rastelar o jardim.

Ele era canhota e todo desleixado em relação à vestimenta. Um verdadeiro energúmeno! Quantas vez tive que dizer: “Essa blusa não orna!”. “Gosto de me vestir de matuto”, respondia todo pimpão.

Eu quero mesmo um homem que usa pulôveres de cashmere, não pantufas. E sem idiomas macarrônicos.

Com maestria, envolvo-me em casos extraconjugais e entro de gaiata neles. Aguardo o lusco-fusco do céu para mandar umas talagadas pra dentro, cujo acúmulo acabava em madrugadas escangalhadas.

Aos poucos, me dei conta de que aquela ogra que eu me tornava na calada da noite me levava cada vez mais longe da minha natureza. Eu voltava para casa totalmente desanimada, murcha.

Minha família nunca entendeu patavina sobre meu problema, mesmo sendo um esteio para todas as horas.

Eu até encomendei alguns fascículos com dicas de relacionamento e mordiscadinhas, mas só recebi filipetas com descontos para cursos de papietagem. Eu que não tenho tutu para isso!

Jamais me passaria pela cachola, mas também tentei uma pajelança indígena. Só que fitoterápico não é panaceia.

Essa história bisonha me dá uma ziquizira. Chego até ter tremeliques e piriri só de relembrar as caras dos empiastros.

Resolvo dar um peteleco em mim mesma para evitar os espasmos. O meu humor ficou azedume diante dessa prosa bizarra.

Quanta falácia! O importante é que comecei a farejar embuste de longe, assim como o chorume, para evitar os faniquitos e dar um arremate de vez na minha vida, antes de cair numa nova arapuca!

Depois dessa minha epifania, se encontrar os estrupícios novamente, sou capaz de cortar seus pingulins e jogá-los no estrume!

“Dou-lhe uma”!

Periga eu morrer de velha sem conhecer anjos alados cheios de candura.

Vamos falar sobre a pandemia?

Mudando de tom para um bem menos pernóstico.

Por que as pessoas não ficam em casa, fazendo coalhada e assistindo ao quadro da Ananda Apple, ao invés de irem a rua em busca de falcatruas? Eu, que sou uma pessoa cosmopolita, estou bem ferrada sem ganhar um tostão. Uma comunista consumista.

Mesmo cafusa, não deixo de ver o desabrochar das flores, nem o farfalhas das folhas prontas para cair.. Parece até sandice da minha parte.

Como agir diante dessa podridão? Vejo tantas imundices por aí, que mandaram às favas as regras de distanciamento.

Tem gente que tenta mocozar. Eu mesma dei as minhas escapadelas e agi como uma lambisgoia!

Estava lumbriguenta para sair de casa. Sou muito rabuda. Depois me arrependia, claro.

Por motivos esconsos, deixo a verdade de lado. Pareço o roto falando do rasgado.

Com a parca oferta de dramaturgia ou realities inéditos, uma boa fofoca vai muito bem.

Antes que a embromação vá adiante, uma pitada de empatia e outra de senso crítico também ajudam bastante. Não estou fazendo troça da situação.

Em nome de certo decoro, chega de ficar dando pitaco.

Gratidão pela leitura depois de toda essa papagaiada. Gosto de escrever melífluas cheias de pompa.

Sem pestanejar, vejo pipocar comentários estapafúrdios e petulantes abaixo…

Oi, Renata

Os homens sempre vão para a cama sonhando com Gilda (do filme) e se decepcionam ao acordar ao lado de Rita”. – Rita Hayworth.

É difícil ser você. É fácil ser você. Depende do dia, do jeito que acordou, do pensamento que brotou na sua mente logo nos primeiros instantes em que abriu os olhos.

Nos dias bons, sou apaixonada por você. Adoro o seu sorriso. Sei que a batalha para tê-lo do jeitinho que você o quer tem sido longa. Aparelhos, clareamento, dinheiro.

Adoro a sua voz, as suas ideias, as suas histórias, as suas cantorias.

Gosto do seu bom-humor. Você é cativante. Carismática. É bom ter você por perto, na roda. É bom ser você.

No dias ruins, eu sei, é difícil ser você. Seus pensamentos te sabotam a todo momento e te levam a um lugar escuro, sem paz, sem amor e sem música. É difícil para nós domá-los. Às vezes temos que apelar para um comprimidinho só para a tortura ter um fim. Só que ela nunca tem fim.

É delicioso ser você. É delicioso ter seu estilo, seu corpo, seus cuidados, suas opiniões, suas escolhas. Aprovo todas elas.

É tenso ser você. Você avacalha, você faz coisas erradas, você não tem juízo! Tudo bem, eu te perdoo, mas será você que não vai aprender nunca, Renata? Quantas vezes eu já te disse que carboidrato à noite não é legal, que ficar stalkeando perfis de instagram não te faz bem, que não se deve ler bula de remédio nem procurar no google efeitos colaterais.

Diga-me, por que você foi gastar R$ 200 e alguns num pijama? Agora, eu tenho que vestir camiseta velha pra dormir porque a senhorita fica com dó de usar a iguaria.

Que orgulho tenho de você! Foram tantos desmaios, tantos choros, tantas lamentações, tantas dores, tantas rezas e você continua de pé. Parabéns pela sua trajetória, garota!

Continue assim, um dia de cada vez e você chega lá!

Agora, chega! Chega de continuar assim, né, Renata?

Levante-se dessa cadeira e vá correr atrás dos seus sonhos, garota!

Estamos entendidas?

Assinado, Renata.

Take Me as I Am, Whoever I Am

In love there’s no hiding: You have to let someone know who you are.

I would have cried from the sheer monotony of it, but tears were too much effort.

I had met the enemy enough times to know it by sight.

“Who are you?” the questionnaire asks at the start.

I want to be honest, but I don’t know how to answer. Who am I now? Or who was I then?

(continue vivendo com dor, alegria, amor, memórias)

Metade – Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.

Quer as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo.

Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço.

Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é plateia
a outra metade é canção.

Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também
.

Nem todas as nossas neuras Freud explica.

Fique no seu quentinho

Escrevi esse texto pensando na Flavinha Fernandes, em mim, no Raul e em todas as pessoas que são adeptas de uma vida mais quentinha, protetora e acolhedora.

A vida pede tantas vezes para irmos lá fora.

A vida pede tantas vezes para sairmos do nosso conforto.

Mas, hoje, você pode se manter no seu quentinho.

Sim, amiga, fique no seu quentinho.

Sinta o quentinho da água que escorre ralo abaixo durante o banho.

Envolva-se no quentinho do edredom.

Vista-se do quentinho do moletom, do pijama e das meias.

Enrole-se no quentinho da manta no sofá.

Saboreie o quentinho do sopão Maggi.

Beba o quentinho do chá das cinco, do café da tarde com bolo mata-fome da vó.

Hospede-se no quentinho aconchegante do seu lar.

Embale-se no quentinho do sono dos justos.

Sintonize-se no quentinho do filme água com açúcar da sessão da tarde.

Deite-se no quentinho do colo de Deus.

Receba essa mensagem dentro de um abraço bem quentinho. O meu.

(Foto: Rawpixel/ Unsplash)

Lenine – “É O Que Me Interessa” 

Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem

Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa

Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
E o vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto
E é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou

Me traz o teu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão

A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição

A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão

A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição

A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa

Minha mente salada de cores

(Foto: Alex Paganelli – Unsplash)

Eu já falei sobre as minhas tristezas, despedidas, amigas, profissões e crises de ansiedade. Agora, vou falar de algo que acontece na minha mente desde sempre.

Quando penso em segunda-feira, penso na cor azul bebê. Para mim, terça é amarela, tom de ovo; quarta é vermelha; quinta é verde escura; sexta é branca e embaçada, como uma nuvem; sábado tem “cara” de cor pastel; e domingo, azul índigo.

Números, nomes, cidades, datas e estações do ano também têm cores para mim. Eu enxergo Renata, por exemplo, amarelo dourado; Paula, vermelho quente; e Bete, salmão. Se ouço um repórter falar de Brasília, me vem o verde bandeira à mente. Verão é sempre laranja. Duas relações bastante óbvias, né.

Será que só eu enxergo os dias, os números, os nomes, o MUNDO, dessa forma?

Será que eu possuo um tipo de sinestesia – um distúrbio neurológico que faz com que o estímulo de um sentido cause reações em outro, gerando uma mistureba de sensações?

Segundo Sean Day, professor na Universidade de Ohio (Estados Unidos) e presidente da Iasas (Sigla inglesa para Associação Internacional de Sinestetas, Artistas e Cientistas), há várias pessoas no mundo com as formas mais diversificadas de sinestesia. Enquanto para mim as letras e palavras transbordam cores, para alguns são os sons e gostos que tomam frente aos sentidos.

Mas o que acontece no cérebro de um sinestata?

Para a maioria das pessoas, os estímulos externos recebidos no cérebro são processados paralelamente e em uma rota específica. Ou seja, nenhum cruza com o outro, e eles são interpretados separadamente.

Porém, no cérebro de um sinesteta, as trilhas se cruzam, criando uma verdadeira salada sensorial entre visão, audição, paladar, tato e olfato. Isso faz com que uma pessoa possa sentir gosto em sons ou enxergar cores em palavras, entre tantas outras misturas possíveis para cada indivíduo sinesteta.

Por favor, não me julguem como louca ou sem noção!

Pesquisadores e neurologistas ao redor do mundo garantem que as reações sinestésicas não são loucura nem uma alteração no estado de consciência.

A sinestesia é simplesmente uma outra forma de ver e sentir a realidade.

Por aqui, o cantor Lulu Santos enaltece a cor azul: “Tudo azul, todo mundo nu. No Brasil sol de norte a sul. Tudo bem, tudo zen, meu bem”. Já nos states, se alguém diz que está blue ou feeling blue, significa que a pessoa está triste, melancólica.

Esse significado provavelmente evoluiu do gênero musical blues e das diversas expressões tristes atreladas a ele: sing the blues, por exemplo, pode tanto ser “cantar blues” quanto “reclamar”.

Lembro-me, então, da música do Elvis Presley Blue Christmas (“I’ll have a Blue Christmas without you / I’ll be so blue just thinking about you”). Mais sad e deprê do que isso, impossible.

By the way, sempre associo as cores preta e branca aos Elvis. Mas há uma explicação: eu o vejo na minha mente vestindo o icônico macacão branco com topete e costeletas negras.

Elvis Presley, o Rei do Rock
Imagem do Elvis em… Preto e branco!

Também guardo gostos e cheiros na memória

Outro dia, ao comer uma bolacha específica da Nestlé, fui levada para a creche que ia quando criança. O gosto me fez voltar para os anos em que derramávamos um monte de groselha nas mesas, para o desespero das tias que cuidavam de nós.

Já o cloro que usei para limpar o piso do banheiro me transportou para a rampa que eu e minhas irmãs descíamos e subíamos para chegar até a piscina de Suarão.

E, na última vez que passei pela marginal Tietê e senti o cheiro de esgoto, lembrei-me do único passeio de Maria Fumaça que fiz pelo Playcenter.

Para mim, bastam apenas poucos segundos para que os aromas me façam reviver experiências – sejam elas boas ou ruins.

Fontes: Sean Day, doutor em linguística pela Universidade de Purdue e presidente da Iasas (sigla inglesa para Associação Internacional de Sinestetas, Artistas e Cientistas); Julia Simner, especialista em linguística e psicologia pelas Universidades de Toronto e Seussex; Patricia Duffy, mestre em artes pela Columbia University, autora do livro “Blue Cats e Chartreuse Kittens: How Synesthetes Color Their Worlds”, cofundadora e consultora da Associação Americana de Sinestesia.

Minha tristeza crepuscular

(antes de começar a ler esse texto, você deve clicar aqui)

Tem um tipo de tristeza com a qual eu me identifico que só aparece ao cair da noite. Quando o sol vai se pondo. Quando as luzes do dia vão embora. Quando a noite vem se aproximando. É ali que ela mora.

Se for domingo, então, a angústia, o vazio, o medo e as inseguranças inflamam ainda mais dentro de mim. Meu instante de grande solidão.

A angústia do domingo à noite é a nossa consciência tentando, de maneira inarticulada, nos despertar para fazermos mais de nós mesmos.

Essa tristeza afeta, principalmente, os que são reféns do amanhã e do ontem, como eu. Sinto uma nostalgia imensa e fico derramada num lugar de saudade que nem consigo explicar.

O teólogo, pedagogo e escritor Rubem Alves, o qual faleceu em março deste ano, fala sobre ela, a tristeza do entardecer (renomeei por livre e espontânea vontade para “tristeza crepuscular”), definindo-a como a simples constatação de que tudo aquilo que a gente ama na vida necessariamente se vai com o fluxo do tempo.

Um dia, segundo ele, estava andando pelo seu apartamento quando contemplou uma foto dos seus filhos pequenos. Naquele exato momento, sentiu uma tristeza. Nada tinha acontecido com os filhos, eles estavam bem e crescidos. Tudo estava certo. Não havia uma notícia ruim, um evento trágico.

Ele simplesmente sentiu tristeza porque lembrou-se de um momento belíssimo da sua vida, da sua família e da infância dos seus filhos.

Como escrevi, não é uma tristeza fruto de um evento trágico. Ela advém no momento em que temos noção da passagem do tempo, do ciclo da vida seguindo o seu curso, das coisas que se vão.

E por que eu a chamo de crepuscular?

Quando chega o crepúsculo, começa a haver transformações rápidas no céu. Rapidamente, as cores vão se alterando, o azul fica verde, o verde fica amarelo, o amarelo fica abóbora, tudo fica roxo e logo o céu está mergulhado na escuridão. A percepção é que a hora de partir está chegando.

O crepúsculo é essa consciência de que o tempo passa rapidamente, a vida passa rapidamente.

De alguma forma o tempo leva tudo embora.

Por outro lado, o tempo nos traz paciência (para lidar com aquilo que não temos controle) e contemplação da vida, como menciona o trecho abaixo do livro bíblico Eclesiastes:

Para tudo há um tempo determinado;
Há um tempo para toda atividade debaixo dos céus:
Tempo para nascer e tempo para morrer;
Tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou;
Tempo para matar e tempo para curar;
Tempo para derrubar e tempo para construir;
Tempo para chorar e tempo para rir;
Tempo para lamentar e tempo para dançar;
Tempo para jogar fora pedras e tempo para ajuntar pedras;
Tempo para abraçar e tempo para evitar os abraços;
Tempo para procurar e tempo para dar por perdido;
Tempo para guardar e tempo para jogar fora;
Tempo para rasgar e tempo para costurar;
Tempo para ficar calado e tempo para falar;
Tempo para amar e tempo para odiar;
Tempo para guerra e tempo para paz.

Para tudo tem seu tempo, e o tempo não é o nosso, e, sim, do Pai.

As coisas acontecem no tempo certo, tudo tem o seu tempo e há coisas que levam tempo.

Deixa a vida fluir e vá desfrutando do presente.