Ela foi para a sua nuvenzinha

A Flávia foi embora. Partiu para a sua nuvem.

Nós conversávamos muito sobre ela: a morte. Nós conversávamos muito sobre tudo. Teve uma vez em que eu fui vistá-la na sua casa, em Jarinu. Cheguei logo depois do almoço e saí de lá quase meia-noite. Durante todo esse tempo, ficamos sentadas na mesa da sala tagarelando enquanto o Keko (seu marido) limpou o quintal, limpou a piscina, limpou a cozinha, levou o Gabriel (seu filhote) na casa do amigo, foi à padaria, buscou o Gabi.

Naquela tarde, nós comemos um bolo e um pacote de bolacha cream cracker inteiro com geleia de morango, bebemos três xícaras de chá, duas de café e um copo de suco. Assunto e apetite não nos faltavam. Não porque éramos duas jornalistas famintas, mas sim porque tínhamos uma conexão incrível e uma fixação por cachorro-quente (mesmo eu sendo vegetariana, às vezes) e torrada com alho às 8h da manhã.

Nós éramos capazes de ficar por horas falando sobre ela: a vida. Tanto que, naquela noite, ao chegar em casa, eu enviei esse trecho de um artigo da Folha a ela:

Eu tenho mania de apagar tudo, mas esse print se manteve intacto na minha galeria.

Eu a amei desde o primeiro dia em que a vi.

Ela era a boneca Barbie da Viúva Porcina e eu adorava isso. Havia a Flávia versão country (que eu chamava de Barbie Rodeio), versão praiana (a Babie Havaí), versão executiva (a Barbie CEO), versão gala (a Barbie Festa). Tudo o que ela colocava tinha a ver com o tema do dia: dos pés à cabeça. Uma Barbie de carne e osso, com colar de pérolas, delineador gatinho e batom vermelho, com roupas da Itália (de Jarinu rs).

Como eu disse lá no começo, nós conversávamos muito sobre ela: a morte. Sempre de forma leve, bem-humorada, mas nem por isso eu deixava de acreditar em suas palavras. Ela costumava dizer que quando chegasse ao céu haveria uma nuvem só para ela, espaçosa e luxuosa. Quando alguém agia de forma ríspida, a loira mandava essa: “Olha que eu não te recebo na minha nuvenzinha!”.

Imagino a nuvenzinha da Flávia toda forrada de animal print, com todos os seus móveis que ela adorava, TV ligada no canal E!, wi-fi bombando, petiscos e bons drinks para as visitas. Hoje, a nuvem da Flá deve estar mega movimentada, um auê danado, enquanto nós, daqui debaixo, sentimos sua partida com uma tristeza sem tamanho.

Na última vez em que trocamos mensagens, eu falei para a Flávia ficar no seu quentinho. A resposta virou até post (de longe, o melhor texto que eu já escrevi). Ela me respondeu com um eu te amo + três corações verdes. Hoje, eu falo para a Flávia me esperar na sua nuvenzinha e te mando, daqui debaixo, um eu te amo pra sempre + infinitos corações verdes.

Quer sorte eu tive em te ver assim, de pertinho, em tantas terças-feiras de manhã. Ah, essa foto eu peguei de um texto do jornalista Thiago Godinho.

Renata: Miga, tô com medo.
Flávia: Medo do quê?
Renata: De morrer…. Não quero morrer e ter que passar pelo túnel escuro!
Flávia: Miga, a ressurreição é algo maravilhoso! Você vai ver quando chegar a hora… E eu vou estar lá te esperando…
Renata: Promete?
Flávia: Prometo! 💚💚💚

Ah! Não consigo falar da Flávia sem pensar em duas pessoas que eu conheci por causa dela: Neide, você é o meu presente da vida! Lili, você é a versão morena da loira. Eu a vejo em você, sabia?

Numa noite de julho
Para Flávia Fernandes

Virando pó, pozinho
Sozinho e sem direção
Nada muda nessa vida
A não ser esse medo
Da solidão

Virando só, sozinho
Poeira varrida no chão
Da sala oriunda do ar
Varanda aberta ao léu
Caminho da rua
Imensidão do céu

Virando nada, nadinha
Coisa maluca essa de morrer
De deixar coisas desencontradas
Não ver mais as pessoas
Com tantos livros a ler
E filmes a assistir
Canções a conhecer
Para cantarolar na imensidão

Virando saudade, imensa
Coisa que ficou engasgada
Notícia tão importuna
Nessa noite de julho
Onde as estrelas brilham
Aquecem e chamam nossa atenção
E num rabo de cometa
Um brilho azul acena
À Terra
Estou logo ali
Num piscar de olhos
Num instante esperança
Nos corações atentos
Uma doce lembrança…

Homenagem do Marcio Martelli da Editora Inn House para a Flávia (a nossa Flavinha)

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