Jornada da Escrita Afetuosa + 3 textos

Sempre quis fazer o curso de Escrita Criativa e Afetuosa, da jornalista e escritora Ana Holanda. O curso é um mergulho profundo no processo de escrita.

Nos últimos dias, participei do projeto “jornada da escrita afetuosa”, comandado por ela. Foram cinco encontros online com orientações para que consigamos escrever sobre o momento em que estamos vivendo e, assim, lidar com isso com mais sanidade, equilíbrio e até mais humanidade. 

Ana fala sobre o medo de escrever, de se expor, de parecer piegas. Um encontro que me deu a coragem necessária para colocar minhas palavras, finalmente, no mundo.

Como ela diz: “A palavra nos salva”.

A diferença entre escritores reais e pessoas que sonham em se tornar escritoras é apenas uma: coragem.

Foto: Cathryn Lavery/ Unsplash

Quadrinho

Olho para um pequeno quadro sem moldura e não-terminado no quarto do meu namorado. Sob a tela, estão pintados um mar azul, uma areia dourada e uma cesta de piquenique com frutas vermelhas e toalha azul de bolinhas brancas. E, rascunhados a lápis, um guarda-sol e duas esteiras de deitar.

Fico pensando: quem pintou este quadrinho? Por que começou e não terminou, e por que eu nunca falei dele ao meu namorado? Frequento este quarto há quase cinco anos. Aqui, perdi a conta de quantas vezes já dormi e acordei. Aqui, chorei, ri e emoções eu vivi. Aqui, falei sobre assuntos diversos: da piada do pintinho à doença da minha vó. Mas nunca, nunquinha, perguntei sobre o quadro mal acabado e a sua autoria.

Eu só reparei de verdade nele hoje, porque colocamos uma mesinha bem de frente. Assim, posso usar o computador enquanto passo a quarentena no quarto do meu namorado. E, desse jeito, ficou inevitável ignorá-lo.

Eu poderia escrever sobre como ver a imagem de uma praia me lembrou dos inúmeros momentos em que vivi com os pés na areia (porque, sim, foram muitos!). Mas, confesso: não sou muito fã de praia.

Sinto-me a pior das criaturas ao abordar este assunto. Porém, como escrever é um ato de coragem, digo a todos em alto e bom som que praia e queijo não fazem parte da minha lista de coisas preferidas da vida. Agora estou pronta para ser apedrejada.

Se tem a chata da comida, a chata da escola, a chata da família, a chata da academia, a chata da limpeza, a chata do passeio, a chata das compras, a chata do relacionamento, por que eu não posso ser a chata da praia?

Tenho a minha cadeira de deitar e o meu guarda-sol. Não entro no mar, não tomo sol. Não gosto de vento, de correr e de reaplicar protetor solar.

Gosto de sombra, milho e biscoito de polvilho.

Gosto de caminhar, ler e observar o cenário.

Gosto de conversas amenas e cochiladas esporádicas.

Voltando ao quadrinho.

Meu namorado acaba de entrar no quarto. Poderia perguntar a ele, neste exato momento, sobre o tal objeto. Ele poderia me responder: “Ah, este quadro foi pintando pela minha tia. Sei lá porque não está terminado. Dever ter acabado a tinta ou enjoado de pintar”. Prefiro ficar quieta.

Desculpe-me, leitores. Mas não quero saber quem o fez. Imagino que quem os fez escolheu deixar assim, para que possamos refletir sobre coisas que não têm fim, apenas começo e meio, como histórias inacabadas, na qual não sabemos como tudo termina.

Odete

Eu pedi a minha mãe o WhatsApp da Odete, sua prima que mora em outra cidade. Ela me perguntou o porquê e respondi dizendo que gostaria de enviar a ela fotos do nascer e do pôr do sol. Simples assim.

Começamos a trocar mensagens: eu e Odete. Não escrevemos quase nada, no máximo “bom dia” e “boa noite”. Apenas enviamos uma a outra, de forma espontânea, fotos bonitas.

Eu adoro ver o laranja do pôr do sol. Sempre acho que Deus está ali presente.

A primeira vez que avistei Odete foi numa casa de repouso, onde uma tia nossa estava internada. Odete apareceu reluzente: loira, cabelos esvoançantes, olhos azuis, bochechas rosadas e fartas.

Depois, encontrei-a numa festa de aniversário da minha mãe. Odete sempre foi muito simpática comigo. Em nosso último encontro, eu estava bastante triste. Ao me ver, ele disse: “Renatinha, linda como sempre”.

Percebo que Odete, assim com as suas fotos de céu, aparecem na hora certa. Neste tempo duro no qual estamos vivendo, o gesto de Odete me afaga, mesmo à distância e sem palavras.

Foto: Mario Purisic/ Unsplash

O que eu aprendi na quarentena

Aprendi na quarentena a ser mãe de pet.

Nos últimos anos, eu quis ter um gato peludo branco, cujo nome seria Sushi ou Shoyu, ou um cachorro peludinho, fofinho, super comportado, o Ulisses.

Não movi uma palha para tê-los.

Na última semana, um vira-lata caramelo e branco, orelhudo, de dentes tortos e patas longas e finas, apareceu na minha vida. Eu e meu namorado herdamos o Pascal, Pacal, Paquito, Pasca, Pac, Paquí, Quiquito, Quito, Quí, Mozão Piludo, Píqui, Piquí, Pí, Piriquito, Piriquí.

Primeiramente, aprendi que cachorros soltam pelos por toda a casa. Cachorros lambem a gente quando estão felizes. Cachorros querem comer tudo o tempo todo. Cachorros fazem suas necessidades onde der na telha. Cachorros têm hora para dormir e para acordar (a dele). Cachorros querem brincar em momentos inoportunos. Cachorros têm seus brinquedos preferidos, e geralmente são os mais xexelentos. Cachorros precisam ter as patas lavadas antes de entrar em casa – e eles odeiam isso. Cachorros às vezes aparecem cheirando a carniça. Cachorros precisam tomar banho – e eles odeiam isso. Cachorros deixam a casa cheirando a cachorro. Cachorros sabem fazer cara de dó quando querem alguma coisa. Cachorros demandam money. Cachorros levam o dono para passear, e não o contrário. Cachorros levantam-se rapidamente quando você vai para a cozinha. Cachorros querem atenção. Cachorros vomitam à noite.

O combinado era deixar o Pascal lá fora, mas – aos pouquinhos – ele foi para a sala, para o quarto ao lado, até que, numa noite, eu o vi na beirada da cama.

Aprendi que ele quer ficar juntinho e, quando não está, eu o quero por perto.

Aprendi que quem cuida se torna potente.

Os animais de estimação têm sido o paradigma da companhia perfeita, afinal, eles nos são fiéis e nunca discordam.

Spending My Tenderness on Animals (Foto: Unsplash)

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