Nunca falei tanto sobre negros – Parte 3

Photo by Sandeep Swarnkar on Unsplash

Notícia 1: “Jovem negro sai para praticar fotografia e é perseguido como suspeito por moradores”

Somos racistas e vivemos em um país racista, e alguns negam.

Notícia 2: “Mulheres negras sofrem mais com desemprego”

De acordo com levantamento feito pelo economista Cosmo Donato, com base na média dos últimos quatro trimestres da PNAD contínua do IBGE, a taxa de desemprego entre as mulheres negras é de 16,6% – o dobro da verificada entre homens brancos, de 8,3%.

O número também é maior do que entre as mulheres brancas (11%) e os homens negros (12,1%).

Além disso, mulheres negras têm um rendimento médio real de R$ 1.476, menos da metade da renda do homem branco – de R$ 3.364. Elas também recebem menos que os homens negros – que ganham R$ 1.849 – e as brancas, que recebem R$ 2.529.

Notícia 3: “Prática discriminatória adentra as grandes corporações”

Exemplo disso foi demonstrado num teste de imagem realizado com profissionais de recursos humanos feito no estado do Paraná.

Na fase um de análise foram apresentadas aos recrutadores seis fotos sem identificações de nome, idade ou origem, apenas tendo em comum a pele branca: 1 – um jovem correndo; 2 – uma moça segurando um casaco; 3 – um homem de terno; 4 – um rapaz cuidando do jardim; 5 – uma mulher limpando a pia; e 6 – uma garota segurando na mão uma tinta spray. Na segunda fase foi apresentado o mesmo conceito de fotos, mas com pessoas negras.

O procedimento e a pergunta realizada nas duas etapas foram de igual forma. As imagens eram mostradas individualmente e, em seguida, o entrevistador perguntava aos recrutadores o que viam na foto. Ao jovem branco correndo foi dito que ele estava atrasado, enquanto ao negro que ele era bandido. A moça segurando um casaco foi vista como designer de moda; já a negra, costureira. O homem branco de terno parecia um executivo; o negro foi apontado como segurança. Sobre o rapaz caucasiano cuidando do jardim, disseram ser o proprietário da casa; o negro, jardineiro. A mulher branca limpando a pia era proprietária, enquanto a negra, empregada. Por fim, a garota branca era apenas uma grafiteira; já a negra foi considerada uma pichadora.

É claro que o audiovisual e a publicidade contribuem violentamente para esse cenário, o que acaba por causar espanto quando alguém de depara com uma pessoa negra na condição de médico, engenheiro, juiz ou arquiteto. Não há dúvida de que essa normatividade é perversa, principalmente porque ao se debruçar sobre a temática é possível observar que não se trata de algo inofensivo, moderado e despretensioso, ao contrário. A ausência de um olhar crítico e antirracista sobre o tema tem efeito real na vida da população negra, já que em menor ou maior grau desaprova profissionais em entrevistas de emprego, fomenta as batidas policiais e cria obstáculos para a ascensão social dessa população.

Meu convite, diz Monique Rodrigues do Padro, advogada, integrante do corpo de advogados voluntários da Educafro, cofundadora do Afronta Coletivo, é para que você não naturalize o olhar. Seja crítico, observe, questione e acima de tudo participe desse processo de desmistificação do status quo.

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