Combo do dia #04 – Morte

Um texto + uma música + um prato

Não sei falar sobre a morte

Photo by Samuel Zeller on Unsplash

Ninguém fala sobre a morte. Ninguém quer falar sobre a morte. Mas é a única certeza que a gente tem.

Não tem nada mais inconveniente, mais inoportuno, mais indelicado, mais desagradável, mais sinistro, mais sombrio que ela: a morte.

A morte é desconsolada, é fria, é dura, é solitária, é malvada.

Um dia você estará morto. A maioria de nós prefere ignorar este básico fato de nossa existência, mas pensar a respeito do nosso fim inevitável é uma maneira de colocar tudo em perspectiva.

“Não tema tanto a morte, mas a vida inadequada”, escreveu o poeta alemão Bertolt Brecht.

“Sei que cada dia é um dia roubado da morte”, disse a escritora Clarice Lispector.

O livro “Tibetano do Viver e do Morrer”, de Sogyal Rinpoche, traz a proposta de pensar na morte todo dia, em vez de fugir e deixar para fazer isso só prestes a morrer. Essa prática serve não apenas para se preparar, mas para entender que a ideia da morte traz consigo a valorização da vida.

Fundador do Doutores da Alegria, o ator e palhaço Wellington Nogueira já presenciou a morte muitas vezes e de diversas formas. Essas experiências despertaram nele a necessidade de ser mais consciente sobre a existência da mortalidade e se aproximar mais dessa inevitável fase da vida, sem tons fúnebres ou excesso de romantismo. Ele acredita que, assim, aprende-se a valorizar mais tudo o que temos em vida.

Temos a morte física dos corpos, mas vivemos várias mortes ao longo de nossa vida.

Há partidas que não deveriam acontecer.

Há pessoas que deveriam ser imortais.

A morte de alguém próximo dói para sempre e você não será a mesma pessoa nunca, por isso é preciso chegar a um acordo com a morte própria e as dos seres queridos. Porque, mesmo nos momentos de dor mais aguda, vivem-se coisas boas.

Se a gente não morresse, aliás, a vida não teria a menor graça – o que nos faz andar é saber que um dia vamos desparecer.

O medo de morrer é um dos três medos que alicerçam a vida, segundo o pesquisador em neurociência e psicoterapeuta americano Stanley Keleman. Nós nos apegamos a um objeto, a uma situação ou a uma pessoa, porque temos medo de não sobreviver sem sua presença.

O medo de morrer também é um dos três ingredientes que compõem a cola do apego emocional. Como os outros dois temores, o medo de enlouquecer e o medo de não pertencer, ele pode se transformar num pântano de areia movediça que nos asfixia e nos impede de mudar.

Qualquer dia desses, embarco eu também… não é assim que é?

“Vai ter que encarar (a morte) um dia. Quando ele convocar, não tem escapatória. Por isso tem que fazer coisas boas aqui, pra dizer: ‘Foi legal'”, lembrou o músico Caçulinha.

“Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a fazer grandes escolhas na vida. Porque quase tudo – expectativas externas, orgulhos, medo de passar vergonha ou falhar – simplesmente some diante da face da morte, deixando apenas o que é verdadeiramente importante. Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu”, reforçou o fundador da Apple, Steve Jobs (1955-2011).

O autor George Saunder, sobre a própria experiência de estar próximo da morte, falou: “E se você puder andar por aí assim o tempo todo, realmente ter a consciência de que em algum momento chega ao fim? Esse é o truque“.

Não quero me aproximar da morte. Quero permanecer segura e o mais longe da morte que puder. Não quero atrair a morte, nem trazê-la para mais perto do que precisa estar. No entanto, de alguma maneira quero ter em mente que ela chegará para mim.

Ler a respeito de pessoas que morreram e que fizeram coisas interessantes durante a vida me dá vontade de levantar e fazer algo decente com a minha. “Pensar na morte todas as manhãs me faz querer viver”, lembrou o escritor Austin Kleon.

“Nunca tive medo de morrer. Eu entendo que cada um de nós está aqui por alguma missão e a única certeza é a morte. Então eu tenho muito mais medo de não fazer o melhor enquanto estou viva”, Ho Yeh Li, médica do HC-SP, vítima de Covid.

Aprendi que ninguém morre quando fica no coração de alguém.

Música: Times Like These, do Foo Fighters

I, I am a new day rising

I’m a brand new sky

To hang the stars upon tonight

I, I’m a little divided

Do I stay or run away

And leave it all behind?

It’s times like these you learn to live again

It’s times like these you give and give again

It’s times like these you learn to love again

It’s times like these time and time again

Letra e canção aqui.

E o prato do dia foi…

  • Bolo Bem Casado

2 comentários em “Combo do dia #04 – Morte

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