Solidão – Por Paulo César Pinheiro

Photo by Maria Teneva on Unsplash

Porque eu amo a solitude, mas odeio a solidão.

Eu sozinho sou mais forte
Minh’alma mais atrevida
Não fujo nunca da vida
Nem tenho medo da morte

Eu sozinho de verdade
Encontro em mim minha essência
Não faço caso de ausência
E nem me incomoda a saudade

Eu sozinho em estado bruto
Sou força que principia
Sou gerador de energia
De mim mesmo absoluto

Eu sozinho sou imenso
Não meço nunca o meu passo
Não penso nunca o que faço
E faço tudo o que penso

Eu sozinho sou a Esfinge
Pousado no meio do deserto
Que finge que sabe o que é certo
E sabe que é certo que finge

Eu sozinho sou sereno
E diante da imensidão
De toda essa solidão
O mundo fica pequeno

Eu sozinho em meu caminho
Sou eu, sou todos, sou tudo
E isso sem ter contudo
Jamais ficado sozinho

O amor por si mesmo é o que nos salva da solidão!

A solitude é isso: estar conectado e em paz consigo. Aprender a desfrutar de um tempo só para si e estar disposto a realizar tarefas sem a companhia de alguém – como um café e até uma viagem – nos proporciona um mergulho em nós mesmos.

Ao perder o medo de ficar só, nos abrimos para viver nossas emoções e conquistamos melhores relações.

Não somos estimulados a ficar sozinhos e olhar para dentro, pelo contrário, a sociedade de consumo na qual vivemos nos convida o tempo todo a olhar para fora, como se a vida fosse uma eterna festa. Esse sentimento de exclusão, característico do mundo contemporâneo hiperconectado, foi denominado pelos americanos de fomo (fear of missing out). É o “medo de ficar de fora” ou de “estar perdendo algo”.

Nas palavras do poeta Fernando Pessoa: “Enquanto não atravessamos a dor de nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Pra viver a dois, antes é necessário ser um”.

Esse é o preço a pagar por sermos mais corajosos, não termos medo de enfrentar o terrível ócio, de passar tempo sozinhos, conosco próprios. Nós sabemos que a companhia mais terrível é a nossa.

Onde há medo e solidão há também estrelas e descobertas.

Guimarães Rosa, em “Ave, Palavra”, nos diz: “Eu estou só. O gato está só. As árvores estão sós. Mas não o só da solidão: o só da solistência”. Da solidão da existência padecem fauna, flora e humanos, com a desvantagem de que os humanos sabem disso. Existimos como peixes, gatos e árvores, mas ao termos consciência disso, vivemos a “dor de existir”, como dirá Lacan.

Para essa dor inescapável, de nos sabermos falhos e finitos, que remédio inventamos?

É difícil ser boa companhia para si mesmo, quando não queremos ouvir o que desejamos de fato. A quarentena acabará, mas a questão da solidão continuará um tema humano fundamental.

Estamos sós e ok.

A solidão não é um sentimento simples, mas um misto de sensações como angústia, dor, medo e tristeza. E são esses os casos que geram estresse emocional, podendo ter consequências para a saúde do coração, principalmente se for um quadro que vem se prologando por algum tempo e se envolver fatores de risco para doenças cardiovasculares, como diabetes, hipertensão, colesterol alto, obesidade, sedentarismo, tabagismo e hereditariedade.

A ideia de passar um tempo sozinho pode ser atraente para alguns e assustadora para outros.

Uma eventual solidão pode gerar uma ansiedade que acaba nos cegando para os verdadeiros benefícios de passar um tempo sozinho.

No entanto, na realidade, o que faz alguém se sentir sozinho não é geralmente o fato de não ter ninguém com quem possa estar. A verdadeira solidão não termina no momento em que estamos conversando com outra pessoa, ela termina quando estamos verdadeiramente conectados com algo, com alguém, ou ainda, porque não, consigo mesmos

2 comentários em “Solidão – Por Paulo César Pinheiro

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