Chapéu

Eu experimentei três vezes um chapéu que, na manequim, parecia lindo. Na primeira, pensei: “definitivamente não vou levar isso”. Na segunda, somente: “não, hoje não”. Na terceira, comecei a me questionar: “por que não?”.

Resposta oficial: eu não tenho coragem suficiente para usar um chapéu de palha. Não me sinto segura. Sinto-me meio palhaça, meio senhora; meio brega, meio brega-chique. Falta autoconfiança, autoestima, segurança em mim mesma, saca?

Cada vez que eu o colocava no provador, me remetia à mente aquelas esquetes de escola nas quais sempre havia uma perua rica… Eu não queria parecer perua rica! Eu queria parecer eu: uma moça que se preocupa com os efeitos nocivos dos raios solares, tem estilo, é segura de si e “empoderada” .

Chapéu é um acessório que não me cabe. Chapéu é para poucos(as). Chapéus são estilosos, modernos, necessários, protetores.

Chapéus passam segurança, riqueza, estilo, autoconfiança.

Depois de conversar com algumas amigas e ver alguns instagrans, decidi levá-lo. Eu precisava levá-lo e ultrapassar essa barreira anti-chapéu que eu impus a mim mesma. Eu precisava provar para o mundo que não são somente mulheres – peruas e ricas – a usar esse tipo de acessório. Eu posso usar chapéu e bolsa da Puma, sim. Eu posso ser moderninha, fina e preocupada com a minha saúde/pele, sim. Eu posso se “descoladinha”, sim.  Eu posso ser tudo isso.

* Vista confiança. Está sempre na última moda. *

Profissões

Quando criança, minha vontade era ser caixa de supermercado. Eu adorava ficar sentada naquela cadeira alta de madeira mega desconfortável, rodopiando em frente à máquina registradora. Eu sempre fazia isso quando um dos caixas estava vazio, para o desespero da minha mãe. Achava o máximo digitar os códigos de barra de cada alimento e abrir a gavetinha do money para checar as cédulas e as moedas.

Ainda pequena, quis (muito) ser secretária de dentista. Eu me realizava com as agendas velhas nunca usadas e fingia que marcava horários a lápis, para depois desmarcá-los com a borracha. Também atendia ao telefone, recebia os pacientes, preparava a sala, esterilizava os aparelhos. Por que dentista? Talvez porque eu frequentasse bastante os consultórios, por conta dos aparelhos ortodônticos que precisei usar na infância. Confesso que, até hoje, tenho vontade de ocupar essa função. Dentistas de todo o país, me contratem?

Mais velhinha, quando perguntavam sobre a profissão que queria seguir, respondia: “Guia de turismo”! Mais uma vez, achava o máximo ver as guias nos ônibus turísticos, sempre tão empoderadas, sorridentes e cheias de conhecimento. O ponto alto era quando elas serviam os lanchinhos a nós, turistas, além dos uniformes impecáveis. Depois, quis ser nutricionista, psicóloga, publicitária, atriz e um monte de outra coisa.

A decisão de estudar jornalismo veio por acaso. Não era a minha primeira opção. Estava conversando com uma amiga ao telefone quando ela sugeriu que eu prestasse essa faculdade no vestibular. Segundo ela, me destacava nos debates da classe e me comunicava bem com os professores, alunos e diretores.

No primeiro dia de aula, a professora perguntou a nós, alunos, porque havíamos optados pela carreira de jornalista. O primeiro da turma disse: “Porque gosto de ler e escrever”. Pronto! A partir de então, todos os outros responderam a mesmíssima coisa. Na época, eu não gostava de ler. Eu não gostava de escrever. Mas, quando chegou a minha vez de responder, cedi à boiada: “Porque gosto de ler e escrever”.

Devia ter dito à professora que não tinha escolhido por carreira alguma. Quem o fez foi minha amiga ao telefone. Eu só segui a sua sugestão, porque, naquele momento da minha vida, estava muito perdida. Ao entrar na faculdade, continuei perdida; mas tão perdida, que mal sabia que o campus possuía mais de um portão de saída. Quando me formei, continuei perdida. Após 15 anos de formada, ainda tento me encontrar, mas, desta vez, gosto demais da conta de ler e escrever!