Nunca falei tanto sobre negros – Parte 1

Nunca falei tanto sobre pessoas negras e hierarquia de raças como nos últimos meses.

Durante 35 anos, me calei diante desse assunto. Agora, aos 35 e alguns meses, comecei a falar, ouvir, pensar e a me interessar sobre esse tema.

Primeiramente, questiono a mim e às pessoas com as quais convivo: “Onde estão os negros?”.

Na escola dos meus sobrinhos, não. No clube em que frequento, não. Nas festinhas dos meus sobrinhos, também não.

Nos restaurantes, teatros e cinemas nos quais costumo ir, não. Nos lugares em que trabalhei, não. No futebol e na aula de balé dos meus sobrinhos, adivinhem? Não!

Na verdade, eles estão lá sim. Não como clientes, alunos, associados, jogadores, bailarinos.

Quase invisíveis, eles estão do outro lado do balcão, atuando em funções as quais, muitas vezes, são consideradas inferiores pela sociedade.

Em 2020, passados 132 anos da Lei Áurea, a maioria dos trabalhadores domésticos, dos ocupantes de subempregos e dos desempregados é negra.

Acabo de ler no LinkedIn: “Pessoas negras e pardas não ocupam espaços que correspondam à sua porcentagem na população brasileira. Basta conferir o organograma de qualquer empresa ou o elenco de qualquer novela”. Continuo achando que pessoas negras ocupam, sim, os mesmo espaços que nós, pessoas brancas, mas com a única e exclusiva função de nos servir.

Será que estou sendo radical demais? Será que estou exagerando?

Leio, na Folha de S. Paulo, Djamila Ribeiro, escritora e ativista: “Somos a maior nação negra fora do continente africano, com dividas históricas para as quais ainda se fecham os olhos. O Brasil é desigual porque não enfrenta da maneira certa as desigualdades causadas pelo racismo. Quando não criamos mecanismos de inclusão, acontece isso, de pessoas não entendendo a gravidade do nosso holocausto”.

Sigo lendo, num perfil do Instagram (infelizmente não me lembro qual), a atriz Elisa Lucinda: “Então você entra num restaurante onde só tem branco e não repara isso. E você é gente boa… Conheço um monte de gente de esquerda que entra num restaurante, só tem branco, e não percebe isso, que alguma coisa está errada. Se tem territorialidade, tem apartheid”.

Holocausto, apartheid! Não, não estou sendo radical demais. Estou sendo de menos! Nós estamos!

A desigualdade se naturalizou de tal forma que as pessoas se acostumaram a entrar em certos ambientes e não encontrar um pessoa negra.

Hoje, quando vou a um restaurante é a primeira coisa que eu penso: “Tem negros aqui?”.

“Não existe racismo no Brasil. O machismo acabou. Homofobia não é mais um problema”. Essas declarações partem, invariavelmente, do opressor – daquele que tem tudo para ser tachado de racista, machista e homofóbico. Difícil ver um negro dizer que nunca sofreu racismo, ou que tem saudades do politicamente incorreto, da época em que faziam “piada de crioulo” na televisão.

Faço parte dessa minoria privilegiada que não é revistada, achacada.

Termino o texto com uma reflexão proposta pela cantora Anelis Assumpção, que li aqui: “Se observo um grupo reunido numa piscina e digo: ‘quanta gente branca’ (que carrega todo o privilégio que estamos todos cansados de saber quais são), quero, na verdade, dizer: ‘onde então estão se divertindo os pretos?’, ‘onde está o grupo de negros e negras reunidos numa piscina por merecimento construído?’”.

Nota: Acabo de ler , na coluna da Mônica Bergamo, sobre o desfile da Mangueira (campeã 2019), no Rio. A escola homenageou Marielle Franco e recontou a história do Brasil, desta vez com o protagonismo de negros e índios, o que atraiu para a Sapucaí boa parte de militantes de esquerda.

A atriz Georgiana Góes disse ter a consciência de que estava “num ambiente burguês, onde quase todos os negros são empregados”. “É difícil isso, a gente quer que eles sejam os protagonistas, não queremos só aplaudir o gari negro que samba. Queremos ele entre a gente”.

Nota 2: No livro “Homem Invisível”, o escritor norte-americano Ralph Ellison conta a história de um homem negro que se muda para uma grande cidade onde os brancos não o enxergam. A colunista Brenda Fucuta diz que, ainda hoje, os invisíveis estão entre nós, limpando o chão da empresa, retirando os pratos do jantar, servindo café em uma reunião de trabalho.

Nota 3: Vera Iaconelli, doutora do Instituto Gerar, diz que ser tido como “branco no Brasil” funciona como um passaporte para ser bem recebido em shoppings, restaurantes, clubes, universidades, aeroportos. “Vale perguntar com quantos psicanalistas negros convivemos e quantos estão em nossas bibliografias?”.

Ainda assim, o brasileiro continua negando a existência de um racismo estrutural, insistindo na ideia do acontecimento isolado.

Nota 4: Dia 20/11 é o Dia da Consciência Negra. Enquanto não houver consciência da desigualdade que as pessoas negras sofrem em nossa sociedade ainda será necessário haver um dia e um mês para nos lembrar de olharmos para isso.

Semana passada estive na Chapada Diamantina, na Bahia. No hotel onde fiquei todos os funcionários eram negros. Não vi nenhum hóspede negro. Isso é algo para se estranhar, num país onde mais de 50% são negros ou pardos e especialmente na Bahia, que é o único estado brasileiro onde há mais pretos autodeclarados do que brancos. Se não estranhamos é porque estamos tão acostumados com o racismo estrutural que permeia nossas vidas diárias, que não percebemos ou achamos normal que a maioria das pessoas em funções subalternas sejam negras enquanto quase não se vê negros em função de liderança ou destaque. Por Sandra Caselato.

Nota 5: O racismo no Brasil está cristalizado em nossa cultura de um modo tão normalizado que muitas vezes não o percebemos. Mas podemos identificá-lo facilmente se prestarmos um pouco de atenção. Não é difícil constatar que poucas pessoas negras ocupam cargos de chefia em grandes empresas e que a maioria dos estudantes nas melhores universidades é branca. Simplesmente ligando a TV podemos notar a baixa representatividade de pessoas negras, e ainda é possível escutar por aí expressões e piadas racistas.

O racismo não se manifesta apenas em forma de discriminação racial direta, mas também de maneira institucional, estrutural e cultural. Ele permeia a todos nós não porque queremos ou porque somos pessoas más, mas porque fomos criados numa sociedade racista e expostos a ele como algo normalizado. E assim, por ser a norma, ele se torna invisível. Invisível na estrutura como nossa sociedade se organiza e invisível quando ocorre dentro de cada um de nós e em atitudes que tomamos sem perceber

Nota 6: Aprendemos a ser racistas desde cedo ao não enxergarmos os negros em espaços de poder: não estão ou estão sub-representados na direção das empresas, na política, na mídia, nos tribunais superiores, nas bancadas de programas de TV, nas universidades, nas salas de aula. Do ponto de vista simbólico, esquadrinhamos inconscientemente os “lugares” de brancos e negros.

Esse “espaço simbólico” certamente contribui para que as mortes de jovens negros nas periferias do Brasil —como foi o caso do menino João Pedronão causem a comoção social que merecem. Assim como não nos causa estranhamento a esmagadora presença de jovens negros no sistema penitenciário brasileiro.

Se a gente aprende a ser racista, pode “desaprendê-lo”. A educação formal é fundamental nesse processo, sendo ela também uma estrutura de poder.

Se ver pessoas negras ocupando lugares de poder importa na desconstrução do racismo, precisamos de mais professores negros. Uma medida importante é a de estabelecer cotas para a contratação de negros no ensino básico —a exemplo do que acontece na cidade de São Paulo— e nas universidades públicas.

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