Corajosa ela

“Quando peço para aprender a ser mais corajoso, a vida não me torna corajoso de repente. Ela me coloca em uma situação na qual a coragem vai ser exigida. E aí eu posso aprender a usar essa virtude, ou posso permanecer no mesmo lugar fazendo do mesmo jeito”, menciona Gu Tanaka, colunista da revista Vida Simples.

No verão passado, eu trabalhei numa loja da Farm, em Cambury, litoral de São Paulo. Foram três meses de “Olá, como posso te ajudar?”.

A coragem não tem nada a ver com as funções que desempenhei como vendedora temporária, uma vez que já tinha feito isso antes. No verão de 2016, trabalhei como balconista na Cacau Show de Boiçucanga, em São Sebastião. Foram outros três meses de “Quer uma ajudinha?”.

Mas você é jornalista, né? Sim. E fez pós na Cásper Líbero, né? Sim. E já esteve em Nova York? Ah, sim. E não foi você que ganhou um prêmio de “jovem talento” no Estadão? Sim, sim! Um celular da @TIM e uma mochilinha.

Na verdade, nunca deixei de ser jornalista. Eu sempre vou ser jornalista, aliás. Mas, ao longo da minha vida, tive a coragem de assumir outros papéis. Além disso, nunca gostei de ficar sem trabalhar.

Ah! Sou “cara” também. Para pagar os meus gastos, só pegando no batente.

Eu, que já tive uma vaga reservada na garagem de um prédio comercial em Alphaville, me vi sentada sozinha no ponto mais deserto da rodovia Rio-Santos, por várias noites, aguardando meu busão chegar. Eu, que já fiz parte da plateia VIP do TEDx Campinas, me vi num depósito minúsculo carregando pilhas de caixas empoeiradas e mofadas. Eu, que já fui dona de um crachá de coordenadora, me vi sendo chamada de novata.

E você fez tudo isso por amor, rebeldia, necessidade?

Fiz tudo isso porque eu tive coragem e porque não existe vida sem perrengue.

Sinto orgulho do quanto que aprendi. Do quanto eu pude amadurecer. Da fé que me reconstruiu.

Senti e ainda sinto Deus segurando as minhas mãos. Vejo Ele cuidando de tudo com muita perfeição.

Compreendo as lições que absorvi na dor. O amanhã só chega para quem sobrevive.

E quanto mais eu me conheço, sei do que preciso para poder resistir, com coragem.

Hoje, aceito que cada fase tem suas dificuldades e belezas, e tiro sempre o que ela tem de mais positivo.

(Foto: Bernard Hermant- Unsplash)

Oração escrita por Edgard Abbehusen

Deus não decepciona. Ele cuida, ampara e tira do seu caminho o que te atrapalha para alcançar Seus planos. Por isso, fé e tranquilidade. Serenidade diante das tempestades. Se você pudesse perceber as pegadas na areia, saberia que nunca esteve só. Não se desespera. Não se limite a pensar que existe um fim, quando na verdade existem diversas possibilidades que podem te ajudar a recomeçar de novo quantas vezes for necessário.

Hoje eu acordei

Cena 1

Hoje eu acordei às 8h30.

Ops! Antigamente eu levantava da cama às 7h. Tudo bem, ainda está dentro do limite. Depois das 9h, eu não me perdoo.

Resolvo ligar a TV antes de me levantar.

Ops! Antigamente eu me alongava, ia ao banheiro e só depois ligava a tela. Tudo bem, está tudo muito confuso no momento. Não tem problema inverter a ordem.

O QUÊ?

Estão dizendo que a vacina da Covid-19 foi aprovada!

Pego o meu celular para checar:

– 159 mensagens no grupo das jornalistas;

– 89 mensagens no grupo da família;

– e mais centenas de outras.

A vacina começará a valer a partir de amanhã. Aleluia!

Então, a partir de amanhã, o mundo voltará ao normal.

Cena 2

Hoje eu acordei às 8h15.

Já estou atrasada para tomar a vacina. O postinho está aberto desdes as 6h. Sigo pra lá, sem me alongar.

O QUÊ?

Dou de cara com uma fila de dobrar o quarteirão, que me lembra a vez em que fui à montanha-russa de madeira no Hopi Hari.

Abandono a ideia de tomar a vacina hoje. Já fiquei tanto tempo isolada, mais uma dia, menos uma dia…

Cena 3

Hoje eu madruguei.

Sim, são antes das 7h e eu já estou na fila. Preparada e alongada.

O QUÊ?

Acabaram-se as vacinas.

Saco. Fica pra amanhã. Já fiquei tanto tempo isolada, mais uma dia, menos uma dia…

Cena 4

Hoje eu acordei às 8h.

Hoje eu fico na fila, faça chuva ou faça sol.

Fui pra fila, me mantive na fila, escutei podcast na fila, fiz amizade na fila, comi na fila, joguei candy crush na fila, me alonguei na fila.

Estou há 5h30 numa fila, que me lembra a vez em que fui assistir Titanic no cinema.

O QUÊ?

Finalmente chegou a minha vez!

Ai, é vacina. Odeio vacinas.

Mas eu tenho que gostar dessa. Foco no meu sobrinho para esquecer a dor. Que carinha fofa. Finalmente vou poder carregar esse menininho no colo!

Foco na minha sobrinha. Que carinha fofa. Finalmente vou poder abraçar essa menininha chata de galocha.

Cena 6

Hoje eu acordei às 9h15.

Não tem problema. Hoje eu tô vacinada. Hoje eu tô feliz. Começo a me alongar, ligo a TV e checo o celular, tudo ao mesmo tempo:

– 268 mensagens no grupo das jornalistas;

– 129 mensagens no grupo da família;

– e mais milhares de outras.

O QUÊ?

Estão dizendo que a vacina não faz efeito.

Ah, não. Vai começar tudo de novo….

Volto a dormir. Já fiquei tanto tempo isolada, mais uma dia, menos uma dia…

(Foto: Emily Morter / Unsplash)

Palavras que fazem PLIN!

(Eu faço listas. Muitas. Numa delas elenquei palavras que fazem PLIN quando alguém as emite. Resolvi unir essas palavras que fazem PLIN numa narrativa ficcional. Eis o resultado da minha colcha de retalhos. Ops! Colcha de palavras que fazem PLIN!)

(Foto: Cody Metcalf / Unsplash)

Quando criança, derrubei a marinex da minha mãe Georgina ao meter o bedelho nas suas mariolas requentadas.

Aconteceu tudo de forma espalhafatosa, de supetão. Deu chabu, claro. Esse episódio causou um quiproquó e rendeu uma cicatriz no meu cocuruto.

Pela primeira vez na vida, emudeci.

Não sei se a minha mãe ficou fula da vida por conta da travessa de vidro espatifada, que era da tia Cidinha, ou do doce de banana/caju que elvis.

Só sei que eu, sua pupila, a decepcionei mais de uma vez. Eu era a centelha da família, aquela que todo mundo esperava ver brilhar.

Dei um pinote alucinado e torrei os pacovás de todo mundo ao longo da minha infância! Eu achava graça no meu jeito traquinas de ser, zanzando para cima e para baixo pelas ruas.

Bendita hora que fui despejar essa bigorna! Que frisson causou tudo isso!

A gentarada toda quis ver a desova do vasilhame. Quanta balbúrdia fui capaz de causar por causa de um pirex mambembe e démodé! A borda estava toda carcumida!

A molecada escafedeu-se quando comecei a chorar como madalena arrependida. Eu estava com um aspecto deplorável.

“Chega de firula“, mainha gritou.”Vou te dar um safanão!”, continuou muito pê da vida. Ainda meio abobalhada, parei para esfriar a moleira.

Ela havia pedido para usar seus utensílios de cozinha com parcimônia, pois, segundo tia Filó, que agita as pestanas e solta perdigotos quando fala, “foram uma barganha“.

Demasiadamente, sinto-me uma palerma por ser tão estabanada. Possuo um tipo de cacoete que não me deixa equilibrar as coisas direito. Além disso, sou péssima na cozinha: meus bolos sempre batumam (eu devo untar a forma?) e não sei sovar pão direito. Mas depois de pronto, gosto de potchar o miolo no ovo, ou comê-lo com jerimum. Dá até pra fazer croquete!

Esses pratos teriam sido bem mais palatáveis. Saudades de uma feijuca.

Deve ser por isso que não namoro gentleman de sorriso jocoso e Gomalina nos cabelos, nem desfruto dos seus benesses. Só saio com mocorongos e acredito em seus discursos nada fidedignos, sendo que a maioria deles tem nome pitoresco.

O último foi o Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbo. Até hoje me recordo do seu olhar brejeiro e de suas piscadelas, quando passeávamos no campo de papoulas.

Teve o Percival também, ele era bem turrão e misturava leite com Gardenal. Um tchongo que se bandeou para o lado, em busca de ninfetas e sirigaitas.

Outro canastrão foi o Donizete, com seus olhos azuis e fartas sobrancelhas grisalhas que lhe dão um ar duendil. Pena que era bebum e só pensava em rastelar o jardim.

Ele era canhota e todo desleixado em relação à vestimenta. Um verdadeiro energúmeno! Quantas vez tive que dizer: “Essa blusa não orna!”. “Gosto de me vestir de matuto“, respondia.

Eu quero mesmo um homem que usa pulôveres de cashmere.

Com maestria, envolvo-me em casos extraconjugais e entro de gaiata neles. Aguardo o lusco-fusco do céu para mandar umas talagadas pra dentro, cujo acúmulo acabava em madrugadas escangalhadas.

Aos poucos, me dei conta de que aquela ogra que eu me tornava na calada da noite me levava cada vez mais longe da minha natureza. Eu voltava para casa totalmente desanimada, murcha.

Minha família nunca entendeu patavina sobre meu problema, mesmo sendo um esteio para todas as horas.

Eu até encomendei alguns fascículos com dicas de relacionamento e mordiscadinhas, mas só recebi filipetas com descontos para cursos de papietagem. Eu que não tenho tutu para isso!

Jamais me passaria pela cachola, mas também tentei uma pajelança indígena. Só que fitoterápico não é panaceia.

Essa história toda me dá uma ziquizira. Chego até ter tremeliques e piriri só de relembrar as caras dos empiastros.

Resolvo dar um peteleco em mim mesma para evitar os espasmos. O meu humor ficou azedume diante dessa prosa bizarra.

Quanta falácia! O importante é que comecei a farejar embuste de longe, assim como o chorume, para evitar os faniquitos e dar um arremate de vez na minha vida, antes de cair numa nova arapuca!

Se encontrar os estrupícios novamente, sou capaz de cortar seus pingulins e jogá-los no estrume!

“Dou-lhe uma”!

Periga eu morrer de velha sem conhecer anjos alados cheios de candura.

Vamos falar sobre a pandemia?

Mudando de tom para um bem menos pernóstico.

Por que as pessoas não ficam em casa, fazendo coalhada e assistindo ao quadro da Ananda Apple, ao invés de irem a rua em busca de falcatruas? Eu, que sou uma pessoa cosmopolita, estou bem ferrada sem ganhar um tostão. Uma comunista consumista.

Mesmo cafusa, não deixo de ver o desabrochar das flores. Parece até sandice da minha parte.

Como agir diante dessa podridão? Vejo tantas imundices por aí.

Tem gente que tenta mocozar. Eu mesma dei as minhas escapadelas e agi como uma lambisgoia!

Estava lumbriguenta para sair de casa. Sou muito rabuda. Depois me arrependia, claro.

Por motivos esconsos, deixo a verdade de lado. Pareço o roto falando do rasgado.

Com a parca oferta de dramaturgia ou realities inéditos, uma boa fofoca vai muito bem.

Antes que a embromação vá adiante, uma pitada de empatia e outra de senso crítico também ajudam bastante. Não estou fazendo troça da situação.

Em nome de certo decoro, chega de ficar dando pitaco.

Gratidão pela leitura depois de toda essa papagaiada. Gosto de escrever melífluas.

Sem pestanejar, vejo pipocar comentários estapafúrdios e petulantes abaixo…

Ganhos da quarentena

Não foram só quilos e espinhas que ganhei neste período incerto e nebuloso em que estou vivendo.

Descobri online algumas grandes pessoinhas que passaram a fazer a diferença no meu dia a dia. Eu as sigo quase que diariamente a fim de me alimentar dos seus conteúdos os quais, sem dúvida, conectam comigo e colaboram para construção do meu conhecimento.

Eu as chamo de musa, gêmea, mentora, amada, deusa, guru. Na verdade, gostaria mesmo de chamá-las de amigas, daquelas que a gente sai para tomar café com pão de queijo, e papear sobre a vida.

A internet tem me possibilitado acessos inimagináveis, tenho aprendido muito sobre produção de conteúdo, militância e cultura negra.

Eis os meus ganhos, pessoas muito boas, que eu admiro:

– Ana Holanda

Muita gente fala que os cursos de escrita da Ana são maravilhosos e mudam a vida de quem escreve (ou não). Eu gosto bastante de quando ela fala sobre escrita afetiva, de vir de dentro, de jogar luz e de compartilhar com o outro nossas palavras.

Tive a oportunidade de escutá-la em algumas lives e, realmente, os papos com a Ana se resumem em aprendizado e afeto. Ana espalha amor pelas palavras. O seu melhor conselho é esse: deixe a palavra te conduzir.

– Beta

Eu já contei a ela que foi por causa do seu extinto blog que comecei a escrever o meu. O nome da Beta encabeça a minha lista de inspirações. Tudo que ela publica eu aplaudo. Também me identifico com o seu olhar melancólico diante das incertezas do momento.

Ela me lembra uma personagem de filme noir francês. Poemas, artes, fotos, letra; tudo que compõe seu feed tem um ar de indie classudo.

– Ana Lu

Tenho vontade de colocar a Ana dentro de um potinho de tão preciosa que ela é.

Ela escreve de dentro (discípula de Ana H.), de forma simples e potente. As palavras que saem do fundo do seu coração brotam direto na tela do meu celular, em forma de notificação. Além disso, a Ana curte os podcasts que eu escuto, lê Vida Simples, é fã de Ruth Manus e Martha Medeiros, é a louca das listas e ainda faz rotina de skincare.

Ou seja, A GENTE TEM ASSUNTO PRA VIDA INTEIRA.

– Maria Vitória

Maravilhosa. A cada post seu, eu me vejo sentada numa sala de aula com caderno e caneta a postos, já que seus conteúdos ajudam escritores independentes e produtores de conteúdo, assim como eu.

Ela fala sobre estratégias para instagram, escrita criativa, produção de conteúdo e vivências negras.

Ela também é extremamente necessária quando o assunto é: desigualdade racial, racismo e seus efeitos.

Eu abri a minha bolha branca cheia de privilégios e a convidei para uma visita. Ela não só aceitou como me respondeu:

“O processo de desconstrução do ser humano é a passagem da vida mais importante e significativa, uma vez que se percebe seu lugar no mundo e entende as condições sociais ao qual se está inserido e tenta, de uma maneira singular mudar a realidade. Gostei muito das suas reflexões e informações, são posts realmente bem estruturados e que mostram várias verdades e apontamentos racistas em que as pessoas brancas adotam ao longo de suas vidas. É uma leitura leve e didática, mesmo o assunto sendo extremamente sério e isso é muito bom, porque traz a opção de atingir muito mais pessoas. Obrigada por compartilhar seus textos comigo, estou passando a seguir seu blog para acompanhar mais de perto os próximos temas que virão”.

– Bruna Cosenza

Criadora do meu blog preferido, Para Preencher, cujas palavras transbordam sentimentos. As suas dicas de escrita caem como uma luva para mim. Ela também fala sobre a liberdade de ser freelancer, felicidade e gratidão, saúde mental e tantos outros assuntos dos quais muito se fala hoje em dia. Sempre de forma LEVE.

Por muito tempo, eu deixei de escrever porque achava que precisava aprender tudo antes para ter um texto perfeito. A Bruna me ensinou que devo apenas escrever, sem rodeios e sem pensar muito. SEM MEDO!

“Escrevo para preencher quem está vazio, quem está pela metade. Para Preencher alguém em algum lugar”.

Iruama Santana

Mais uma blogueira/ influenciadora falando sobre cuidados com a pele, beleza e bem-estar! NÃO! A Iru trata desses assuntos (de suma importância para mim, ok?) de forma humanizada, real.

Vocês não têm ideia do quão complexo é lidar com a pele. Mas a Iru tem! Ela narra seus altos e baixos no convívio com a rosácea, divide seus tratamentos e suas frustrações. Ah, e sempre responde os meus comentários e directs. Adoro!

Seu maior segredo de beleza? “Paciência e dedicação valem a pena, sempre, em qualquer área da vida”.

“Será que a gente precisa estar 100% para se sentir 100%? Já disse que não enxergo coisas normais da pele, poros, por exemplo, como imperfeições. São características normais. É claro que algumas características mais acentuadas podem incomodar. Porém, tentar controlar tudo para manter um padrão inventado e espúrio nos leva a uma constante insatisfação.

Pois, o que nos parece grande, aos olhos de outras pessoas, pode nem ser nada. Porém, há mais uma coisa: ter me desligado dessa questão da acne durante o dia inteiro, me fez nem pensar ou perceber se estavam reparando ou não… A mudança que queremos, realmente, começa em nós”. ⁣

Edgard Abbehusen

Quem me indicou o instagram do jornalista baiano que se diz sonhador de um mundo melhor foi minha best Neide.

Desde então, suas publicações de textos, frases, crônicas e poemas de amor são aplaudidas por mim e mais uma legião de seguidores.

Para todos que estão vivendo um momento difícil, as palavras do Edgard nos ajudam a reaprender a amar e a continuar. A fazer novos caminhos, outras escolhas.

“Edgard cuida de si e do outro quando escreve. É cuidado em forma de palavra”. – BRÁULIO BESSA, POETA E ESCRITOR

Pastor Henrique Vieira

Pastor, ator, escritor, poeta e militante na defesa dos direitos humanos. Bastou escutá-lo uma vez no podcast Mamilos, junto com a psicanalista Maria Homem, que passei a segui-lo e a escutar suas falas calmas e tocantes sobre fé, amor e revolução.

Ele me faz olhar para dentro e para fora, com solidariedade e compaixão. Ele me faz acreditar que o sol não deixa de brilhar mesmo em dias chuvosos!

Ele me ajuda a ter fé na vida, confiança na bondade e perseverança no amor.

“Não temos controle sobre todas as variáveis da vida. Esta perspectiva não deve nos levar ao desespero, mas provocar em nós a valorização das coisas simples e singelas, do tempo presente. Deve nos levar ao cuidado conosco e com o próximo. Deve nos despir de toda vaidade e ganância e abrir nosso peito para um encontro fraterno com a humanidade. Diante da nossa fragilidade podemos dar um sentido mais intenso e amoroso para nossa existência. Olhar para dentro e acolher nossa fragilidade e olhar para fora e amar a humanidade e toda Natureza da qual ela faz parte”.

Oi, Renata

É difícil ser você. É fácil ser você. Depende do dia, do jeito que acordou, do pensamento que brotou na sua mente logo nos primeiros instantes em que abriu os olhos.

Nos dias bons, sou apaixonada por você. Adoro seu sorriso. Sei que a batalha para tê-lo do jeitinho que você o quer tem sido longa. Aparelhos, clareamento, dinheiro.

Adoro sua voz, suas ideias, suas histórias.

Gosto do seu bom-humor. Você é cativante. Carismática. É bom ter você por perto, na roda. É bom ser você.

No dias ruins, eu sei, é difícil ser você. Seus pensamentos te sabotam a todo momento e te levam a um lugar escuro, sem paz, sem amor. É difícil a gente domá-los. Às vezes temos que apelar para um comprimidinho só para a tortura ter um fim. Só que ela nunca tem fim.

É delicioso ser você. É delicioso ter seu estilo, seu corpo, seus cuidados, suas opiniões, suas escolhas. Aprovo todas elas.

É tenso ser você. Você avacalha, você faz coisas erradas, você não tem juízo! Tudo bem, eu te perdoo, mas será você que não vai aprender nunca, Renata? Quantas vezes eu já te disse que carboidrato à noite não é legal, que ficar stalkeando perfis de instagram não te faz bem, que não se deve ler bula de remédio nem procurar no google efeitos colaterais.

Diga-me, por que você foi gastar R$ 200 e alguns num pijama? Agora, eu tenho que vestir camiseta velha pra dormir porque a senhorita fica com dó de usar a iguaria.

Que orgulho tenho de você! Foram tantos desmaios, tantos choros, tantas lamentações, tantas dores, tantas rezas e você continua de pé. Parabéns pela sua trajetória, garota! Continue assim, um dia de cada vez e você chega lá!

Agora, chega! Chega de continuar assim, né, Renata? Levante-se dessa cadeira e vá correr atrás dos seus sonhos, garota!

Estamos entendidas?

Assinado, Renata.

(continue vivendo com dor, alegria, amor, memórias)

Metade – Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
pois metade de mim é partida
a outra metade é saudade.

Quer as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
pois metade de mim é o que ouço
a outra metade é o que calo.

Que a minha vontade de ir embora
se transforme na calma e paz que mereço
que a tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
a outra metade um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
pois metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o seu silêncio me fale cada vez mais
pois metade de mim é abrigo
a outra metade é cansaço.

Que a arte me aponte uma resposta
mesmo que ela mesma não saiba
e que ninguém a tente complicar
pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
pois metade de mim é plateia
a outra metade é canção.

Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade também
.

Fique no seu quentinho

Escrevi esse texto pensando na Flavinha Fernandes, em mim, no Raul e em todas as pessoas que são adeptas de uma vida mais quentinha, protetora e acolhedora.

A vida pede tantas vezes para irmos lá fora.

A vida pede tantas vezes para sairmos do nosso conforto.

Mas, hoje, você pode se manter no seu quentinho.

Sim, amiga, fique no seu quentinho.

Sinta o quentinho da água que escorre ralo abaixo durante o banho.

Envolva-se no quentinho do edredom.

Vista-se do quentinho do moletom, do pijama e das meias.

Enrole-se no quentinho da manta no sofá.

Saboreie o quentinho do sopão Maggi.

Beba o quentinho do chá das cinco, do café da tarde com bolo mata-fome da vó.

Hospede-se no quentinho aconchegante do seu lar.

Embale-se no quentinho do sono dos justos.

Sintonize-se no quentinho do filme água com açúcar da sessão da tarde.

Deite-se no quentinho do colo de Deus.

Receba essa mensagem dentro de um abraço bem quentinho. O meu.

(Foto: Rawpixel/ Unsplash)

Lenine – “É O Que Me Interessa” 

Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem

Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa

Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
E o vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto
E é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou

Me traz o teu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão

A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição

A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão

A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição

A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa

Minha mente salada de cores

(Foto: Alex Paganelli – Unsplash)

Eu já falei sobre as minhas tristezas, despedidas, amigas, profissões e crises de ansiedade. Agora, vou falar de algo que acontece na minha mente desde sempre.

Quando penso em segunda-feira, penso na cor azul bebê. Para mim, terça é amarela, tom de ovo; quarta é vermelha; quinta é verde escura; sexta é branca e embaçada, como uma nuvem; sábado tem cara de cor pastel; e domingo, azul índigo.

Números, nomes, cidades, datas e estações do ano também têm cores para mim. Eu enxergo Renata, por exemplo, amarelo dourado; Paula, vermelho quente; e Bete, salmão. Se ouço um repórter falar de Brasília, me vem o verde bandeira à mente. Verão é sempre laranja. Duas relações bastante óbvias.

Será que só eu enxergo os dias, os números, os nomes, o MUNDO, dessa forma?

Será que eu possuo um tipo de sinestesia – um distúrbio neurológico que faz com que o estímulo de um sentido cause reações em outro, gerando uma mistureba de sensações?

Segundo Sean Day, professor na Universidade de Ohio (Estados Unidos) e presidente da Iasas (Sigla inglesa para Associação Internacional de Sinestetas, Artistas e Cientistas), há várias pessoas no mundo com as formas mais diversificadas de sinestesia. Enquanto para mim as letras e palavras transbordam cores, para alguns são os sons e gostos que tomam frente aos sentidos.

Mas o que acontece no cérebro de um sinestata?

Para a maioria das pessoas, os estímulos externos recebidos no cérebro são processados paralelamente e em uma rota específica. Ou seja, nenhum cruza com o outro, e eles são interpretados separadamente.

Porém, no cérebro de um sinesteta, as trilhas se cruzam, criando uma verdadeira salada sensorial entre visão, audição, paladar, tato e olfato. Isso faz com que uma pessoa possa sentir gosto em sons ou enxergar cores em palavras, entre tantas outras misturas possíveis para cada indivíduo sinesteta.

Por favor, não me julguem como louca ou sem noção!

Pesquisadores e neurologistas ao redor do mundo garantem que as reações sinestésicas não são loucura nem uma alteração no estado de consciência.

A sinestesia é simplesmente uma outra forma de ver e sentir a realidade.

Por aqui, o cantor Lulu Santos enaltece a cor azul: “Tudo azul, todo mundo nu. No Brasil sol de norte a sul. Tudo bem, tudo zen, meu bem”. Já nos states, se alguém diz que está blue ou feeling blue, significa que a pessoa está triste, melancólica.

Esse significado provavelmente evoluiu do gênero musical blues e das diversas expressões tristes atreladas a ele: sing the blues, por exemplo, pode tanto ser “cantar blues” quanto “reclamar”.

Lembro-me, então, da música do Elvis Presley Blue Christmas (I’ll have a Blue Christmas without you / I’ll be so blue just thinking about you). Mais sad e deprê do que isso, impossible.

By the way, sempre associo as cores preta e branca aos Elvis. Mas há uma explicação: eu o vejo na minha mente vestindo o icônico macacão branco com topete e costeletas negras.

Elvis Presley, o Rei do Rock
Imagem do Elvis em… Preto e branco!

Também guardo gostos e cheiros na memória

Outro dia, ao comer uma bolacha específica da Nestlé, fui levada para a creche que ia quando criança. O gosto me fez voltar para os anos em que derramávamos um monte de groselha nas mesas, para o desespero das tias que cuidavam de nós.

Já o cloro que usei para limpar o piso do banheiro me transportou para a rampa que eu e minhas irmãs descíamos e subíamos para chegar até a piscina de Suarão.

E, na última vez que passei pela marginal Tietê e senti o cheiro de esgoto, lembrei-me do único passeio de Maria Fumaça que fiz pelo Playcenter.

Para mim, bastam apenas poucos segundos para que os aromas me façam reviver experiências — sejam elas boas ou ruins.

Fontes: Sean Day, doutor em linguística pela Universidade de Purdue e presidente da Iasas (sigla inglesa para Associação Internacional de Sinestetas, Artistas e Cientistas); Julia Simner, especialista em linguística e psicologia pelas Universidades de Toronto e Seussex; Patricia Duffy, mestre em artes pela Columbia University, autora do livro “Blue Cats e Chartreuse Kittens: How Synesthetes Color Their Worlds”, cofundadora e consultora da Associação Americana de Sinestesia.

Minha tristeza crepuscular

(antes de começar a ler esse texto, você deve clicar aqui)

Tem um tipo de tristeza com a qual eu me identifico que só aparece ao cair da noite. Quando o sol vai se pondo. Quando as luzes do dia vão embora. Quando a noite vem se aproximando. É ali que ela mora.

Se for domingo, então, a angústia, o vazio, o medo e as inseguranças inflamam ainda mais dentro de mim. Meu instante de grande solidão.

A angústia do domingo à noite é a nossa consciência tentando, de maneira inarticulada, nos despertar para fazermos mais de nós mesmos.

Essa tristeza afeta, principalmente, os que são reféns do amanhã e do ontem, como eu. Sinto uma nostalgia imensa e fico derramada num lugar de saudade que nem consigo explicar.

O teólogo, pedagogo e escritor Rubem Alves, o qual faleceu em março deste ano, fala sobre ela, a tristeza do entardecer (renomeei por livre e espontânea vontade para “tristeza crepuscular”), definindo-a como a simples constatação de que tudo aquilo que a gente ama na vida necessariamente se vai com o fluxo do tempo.

Um dia, segundo ele, estava andando pelo seu apartamento quando contemplou uma foto dos seus filhos pequenos. Naquele exato momento, sentiu uma tristeza. Nada tinha acontecido com os filhos, eles estavam bem e crescidos. Tudo estava certo. Não havia uma notícia ruim, um evento trágico.

Ele simplesmente sentiu tristeza porque lembrou-se de um momento belíssimo da sua vida, da sua família e da infância dos seus filhos.

Como escrevi, não é uma tristeza fruto de um evento trágico. Ela advém no momento em que temos noção da passagem do tempo, do ciclo da vida seguindo o seu curso, das coisas que se vão.

E por que eu a chamo de crepuscular?

Quando chega o crepúsculo, começa a haver transformações rápidas no céu. Rapidamente, as cores vão se alterando, o azul fica verde, o verde fica amarelo, o amarelo fica abóbora, tudo fica roxo e logo o céu está mergulhado na escuridão. A percepção é que a hora de partir está chegando.

O crepúsculo é essa consciência de que o tempo passa rapidamente, a vida passa rapidamente.

De alguma forma o tempo leva tudo embora.

Por outro lado, o tempo nos traz paciência (para lidar com aquilo que não temos controle) e contemplação da vida, como menciona o trecho abaixo do livro bíblico Eclesiastes:

Para tudo há um tempo determinado;
Há um tempo para toda atividade debaixo dos céus:
Tempo para nascer e tempo para morrer;
Tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou;
Tempo para matar e tempo para curar;
Tempo para derrubar e tempo para construir;
Tempo para chorar e tempo para rir;
Tempo para lamentar e tempo para dançar;
Tempo para jogar fora pedras e tempo para ajuntar pedras;
Tempo para abraçar e tempo para evitar os abraços;
Tempo para procurar e tempo para dar por perdido;
Tempo para guardar e tempo para jogar fora;
Tempo para rasgar e tempo para costurar;
Tempo para ficar calado e tempo para falar;
Tempo para amar e tempo para odiar;
Tempo para guerra e tempo para paz.

Para tudo tem seu tempo, e o tempo não é o nosso, e, sim, do Pai.

As coisas acontecem no tempo certo, tudo tem o seu tempo e há coisas que levam tempo.

Deixa a vida fluir e vá desfrutando do presente.

A imagem pode conter: 3 pessoas, pessoas sentadas, criança, sapatos e atividades ao ar livre

Vivendo numa bolha branca

Acabo de ler:

“Ei, branco, você é mesmo antirracista?”. 

Continuo lendo:

“Não basta gostar do Mano Brown, achar a Naomi Campbell e a Michelle Obama ‘incríveis’, repetir frases da Angela Davis e outros tantos pensadores e pensadoras negras porque é ‘cool’ se você fica em silêncio diante de uma demonstração de racismo“.

GLUMP!!!

Dizer que não existe racismo no Brasil é querer tapar o sol com a peneira.

Peggy McIntosh, acadêmia feminista e antirracista define a branquitude como um “pacote invisível e indébito de ativos que podem ser descontados diariamente”, mas cuja existência não se reconhece.

“Como uma pessoa branca, eu tinha aprendido que o racismo é algo que coloca os outros em desvantagem, mas não fui ensinada a enxergar um de seus corolários no privilégio branco, que me coloca em vantagem“, explica.

Ter a consciência de que brancos usufruem de privilégios simbólicos e materiais em relação aos negros é passo fundamental para que se possa combater o racismo no Brasil.

Sim, é fundamental que nós, brancos, atentemos para nossas percepções, concepções e práticas e, em autocrítica, tenhamos a lucidez necessária sobre essa questão tão presente.

Mas, afinal, o que é privilégio?

Gostei muito da explicação de um amigo que trabalha com TI (Tecnologia da Informação). Ele disse que em sua área profissional, privilégio é o nome dado à permissão que apenas alguns usuários têm, num sistema de computador, para executar determinadas ações ou acessar determinadas áreas.

Se todos têm acesso ou controle sobre algo, então não há privilégio. Privilégio existe somente em relação a outros não terem as mesmas possibilidades ou vantagens.

De acordo com as condições nas quais a pessoa nasceu, ela terá mais ou menos acesso a certas coisas como até mesmo ter ou não suas necessidades básicas na infância atendidas e acesso à escola, por exemplo.

Se as mortes negras parecem distantes do mundo onde você vive, saiba que as instituições que negam justiça a estas mortes moram ao seu lado. São as corregedorias de polícia, os governos estaduais, as promotorias. O que nos falta não são notas de pesar; falta usar o privilégio que nos faz viver longe destas mortes para que elas, ao menos, recebam a justiça que merecem. Thiago Amparo, professor.

Djamila Ribeiro lança Pequeno Manual Antirracista - Marlos Bakker
A filósofa feminista negra Djamila Ribeiro

Em Pequeno Manual Antirracista, a filósofa feminista negra Djamila Ribeiro busca levar ao grande público, com uma linguagem didática, uma discussão que costuma ficar restrita a círculos acadêmicos e de militância.

“Hoje tem pessoas que até reconhecem o racismo, sabem que o Brasil é racista, mas não pensam quanto que é importante tomar atitudes em relação a isso“, explica.

A prática antirracista é urgente e se dá nas atitudes mais cotidianas.

COMO?

  • informar-se sobre racismo
  • ler mais autores negros
  • reconhecer os privilégios de ter nascido branco
  • apoiar ações que promovam a igualdade racial nos diferentes âmbitos da sociedade.

Segundo Djamila, as ações acima podem ajudar a reverter o quadro atual.

“No Brasil, há a ideia de que a escravidão aqui foi mais branda do que em outros lugares, o que nos impede de entender como o sistema escravocrata ainda impacta a forma como a sociedade se organiza”, diz em um dos capítulos do livro.

A questão é: “O que você está fazendo ativamente para combater o racismo?”.

“Não se trata de se sentir culpado por ser branco: a questão é se responsabilizar. Diferente da culpa, que leva à inércia, a responsabilidade leva à ação. Dessa forma, se o primeiro passo é desnaturalizar o olhar condicionado pelo racismo, o segundo é criar espaços, sobretudo em lugares que pessoas negras não costumam acessar”, acrescenta.

Termino esse texto lendo a frase do ex-jogador norte-americano de basquete profissional Michael Jordan:

“Algumas pessoas querem que algo aconteça; outras desejam que aconteça alguma coisa e existem as pessoas que fazem acontecer“.

Agora, me diga, quais autores negros você já leu?

Como cada indivíduo deve agir para combater o racismo?

“Se você é dona de uma empresa ou de uma loja, invista na diversidade, contratando funcionários negros. Ofereça treinamento a seus empregados para combater os estereótipos. Isso é um problema muito grande: assumir que uma pessoa é de um determinado jeito só pela cor da pele, sem ao menos conversar com ela. Nós, como consumidores, temos que parar de comprar produtos de marcas que não apoiam a comunidade negra. As marcas precisam assumir seu papel. Não adianta grandes empresas doarem dinheiro para campanhas de diversidade, se dentro dessas mesmas empresas só a tia do cafezinho e o cara da limpeza forem negros. É importante ter diversidade no andar de cima também. É preciso dar oportunidades para que os negros ocupem esses espaços. Se você tem amigos negros e sabe que eles são capacitados, use o seu lugar de fala e indique essas pessoas para essas vagas. Questione a falta de diversidade no seu ambiente de trabalho”. Ingrid Silva, bailarina engajada em promover a diversidade no mundo do balé e o empoderamento das mulheres.

Você é Deus?

(escrevi esse texto no começo deste ano)

Pergunto isso porque o senhor brota, do nada, nos lugares em que estou.

Pergunto isso porque te ver me acarreta uma sensação boa, de paz.

Pergunto isso porque eu admiro-o, mesmo sem te conhecer.

Você está sempre sozinho, mas bastante atuante.

Ora o senhor está lendo jornal na biblioteca do Complexo Argos, ora perambulando com mochila nas costas pelas ruas do centro.

Já o vi comendo maçã na calçada perto de casa; de calça e camisa jeans no shopping da Nove. Já o vi, inclusive, na Oficina de Costura e na aula de Recorte e Colagens, ambas no Sesc.

Parece que o senhor tem uma vida produtiva, rica em conhecimento. O senhor deve ser um pessoa culta, do bem, moderna, apesar dos fios brancos em sua cabeça.

Não o vejo como um senhor solitário, pois está sempre bem acompanhado: seja pelos livros, jornal, maçã, mochila ou tesoura.

Hoje o senhor esta sentado à minha frente: de camisa polo azul, chuteira vermelha Adidas e calça de capoeira; cabelo bem penteado; mochila ao lado na cadeira; celular carregando na tomada.

Tenho a sensação de que o senhor está rejuvenescendo a cada dia que passa. Gostaria de saber por que razão tanto vê o celular. Será que faz parte de um grupo? Turma da Leitura, Amigos do Sesc, Grupo da Argos, Colegas da Melhor Idade, Galera da Ginástica. Será que o senhor lê artigos de educação, culturais, notícias sobre política, economia?

NOTA: O que o senhor tem feito nesta quarentena? Tem lido jornais, como? Tem conversado com os colegas pelo whats? Aliás, o senhor tem Instagram?

(Foto: Umplash)